25.2.04

Valores


Li o post de Ana Gomes sobre o aborto e em resposta a um artigo de Telmo Correia. Como já aqui disse, tenho várias dúvidas sobre o assunto e em alguns casos fui forçado a concordar com as observações de dirigente do PS, ainda que descontando algum tom passionário que me falta.

No entanto, Ana Gomes fez-me recordar porque tenho tanta dificuldade em aderir à descriminalização do aborto quando diz que defende “o direito à vida, com qualidade e perspectivas de futuro decente”.

Esta ideia de que só uma vida decente é vida faz-me extrema confusão e escapa-me dos meus quadros civilizacionais. Utilizemos esta ideia no caso de Timor, por exemplo, causa em que Ana Gomes tanto se notabilizou.

Se ficasse provado que Timor não tinha efectivas condições de sobreviver economicamente como país independente. Se ficasse provado que a Indonésia, aceitando todas as regras, instituía uma regime democrático e económico que fosse vantajoso para Timor, ainda assim continuaria a lutar por um Timor independente? (Acham a comparação estúpida ou ridícula? Vejam o que Mário Soares diz em Portugal Amordaçado)

Penso que a resposta de Ana Gomes, ao contrário da que foi dada por Mário Soares no seu livro, seria que sim. Que continuaria a lutar pela independência de Timor.

Porque há valores que não se vendem. Há valores que se impõem sobre os restantes.

23.2.04

Independências


Não existe partido que não procure alargar-se aos independentes. O objectivo é um contra-senso porque a verdadeira motivação dos partidos políticos ao buscarem independentes é precisamente negarem-se a si próprios.

Comecemos pelo princípio. Um independente é supostamente uma figura da sociedade civil que, pelos méritos demonstrados na sua vida profissional, pode emprestar uma credibilidade e uma agilidade ao partido que o acolhe. É um sinal de aproximação à sociedade que escapa aos vícios partidários, às quotas das distritais, às cunhas e aos favores.

Melhor seria, claro, que os partidos corrigissem os vícios que têm e soubessem encontrar nos seus quadros, sem quaisquer pressões, os nomes mais indicados para cada lugar, de acordo apenas com o mérito. Mas em vez disso preferem ter 90% das listas preenchidas com candidatos indicados pelas diversas quotas, e apenas 10% de independentes, também eles uma quota. Melhor seria que prescindissem dos independentes e optassem por fazer listas com 100% de militantes, sendo 90% destes escolhidos pelo mérito. Isso sim, seria um sinal de abertura à sociedade civil.

Porque, nos actuais termos, os independentes não são independentes. Há vários estilos:

1) O independente que nunca se deu ao trabalho de filiar, mas que toda a gente sabe que está na órbita desse partido: caso de Teresa Lago, Teresa de Almeida Garrett ou Rosado Fernandes;
2) O independente que nunca se filiou para poder ostentar o título de descomprometido apesar de estar comprometido como os outros todos: caso de Elisa Ferreira;
3) O independente que gosta da independência para lhe permitir saltitar de um lado para o outro, com pretensa autoridade porque já apoiou os adversários: caso de Eduardo Prado Coelho;
4) O independente que não lhe convém filiar porque tem profissões que não deviam permitir filiação: caso de Vicente Jorge Silva, Maria Elisa ou Manuela Moura Guedes;
5) O independente que se filia 10 minutos depois: caso de Ana Gomes ou Maria José Nogueira Pinto.
6) O independente que vai à política buscar contactos para a sua vida profissional: caso de Luís Duque.
7) O independente que nunca imaginou ser convidado mas que adorou a honra: caso de Ribeiro Cristóvão ou Rosa Mota.

Um independente no verdadeiro sentido termo, um homem com mérito que se interessa pela coisa pública e que tem capacidades para governar é habitualmente um militante do seu partido que se viu impedido de exercer qualquer função para que não entrou nos esquemas.

Assim, em época de elaboração de listas e numa altura em que a Europa é ainda uma incógnita para os portugueses, roga-se aos principais partidos que descubram os melhores dos melhores e que não pretendam enganar, como sempre, o povo eleitor.

Presidenciais II


O Bloguítica discorda quando digo que Cavaco só está no topo das sondagens porque anda calado. Se assim fosse, Guterres, que anda calado, também estaria no topo das sondagens.Acontece que eu penso que Guterres anda tão em baixo nas sondagens precisamente porque anda calado. Assim que começar a intervir no seu tom e no seu estilo de assuntos, Guterres subirá nas sondagens. Um ganha se estiver calado e o outro se estiver em campanha. Ora, se para ser Presidente é necessário uma campanha, Guterres tem mais condições de ganhar as eleições.

É curioso ver como Guterres tem sido tão desvalorizado eleitoralmente nos últimos tempos. E tem sido desvalorizado com o mesmo argumento que tem suportado Cavaco, isto é, o desempenho como Primeiro Ministro. Acontece que os portugueses têm feito essa distinção e não hesitam em votar no candidato que se mostrar mais afectuoso com o povo. É assim que os portugueses vêem o Presidente. E Guterres encaixa-se perfeitamente nessa figura. Aliás, esse é o único cargo em que, tal como ele é exercido em Portugal, Guterres se encaixa.

A esquerda que abomina o centro e que domina tudo quanto é opinião publicada tem feito um esforço sobre-humano para criar a sensação de que Guterres não é desejado nem pelos portugueses nem pela esquerda. A direita, que abominou o estilo “dolce fare niente” de Guterres não quer sequer ouvir falar dele esquecendo-se que, caso seja um Presidente proveniente da esquerda, o melhor mesmo é que ele não faça e não queira fazer nada. E com esta conjugação de vontades, Guterres parece um moribundo eleitoral. Parece-me um contra-senso. Uma realidade fabricada que não corresponde à realidade. Guterres é o único candidato de esquerda que pode ganhar as eleições. Contra Cavaco e contra Santana. E a esquerda sabe disso e anda desesperada a querer encontrar outro candidato. Mas não vai encontrar.

Tudo isto são especulações. Mas veremos daqui a um ano quem é que são os candidatos e quem vai estar à frente nas sondagens.

A esquerda de Freitas


É engraçado ver como a Esquerda tende a divinizar Freitas do Amaral, agora que ele aparece de braço dado com Louçã. E é engraçado como essa regeneração do senhor professor é acompanhada de acusações aos ex-companheiros de partido de Freitas do Amaral que, tão mauzinhos e incoerentes que eles são, não percebem que foram eles que viraram à direita e Freitas à esquerda. Este é o resumo do post do Barnabé que, de forma geral, espelha tudo o que a esquerda pensa sobre Freitas.

Daniel Oliveira diz em síntese que Freitas não saiu do sítio e se manteve tal qual era há 20 anos ao contrário dos restantes membros do CDS que guinaram à direita. Em primeiro lugar, um homem que mantenha as mesmas posições sobre todos os assuntos que mantinha em 1974 parece-me um caso de insanidade. O país de 74 era outro e as necessidades eram outras e a politização que então se vivia exigia um conjunto diferente de perspectivas. Vejam-se os trotskistas do Bloco de Esquerda. Agora defendem a Europa e até a Nato, talvez inspirados pelo federalismo de Freitas. O mundo mudou e exigiu que o acompanhássemos. Quem o acompanhou, seja por que rumos, mostrou-se capaz de perceber o futuro. Quem o não fez, agarrou-se ao passado. Esse é o caso de Cunhal, a quem poderemos admirar a coerência, mas pouco mais do que isso em termos políticos. E pelos vistos, a considerar o que diz o Daniel Oliveira, é também o caso de Freitas.

Mas se o raciocínio de Daniel Oliveira estivesse correcto, então teríamos que continua-lo até chegar à conclusão que se Freitas está no mesmo sítio e se a comunhão entre Freitas e a esquerda tem sido evidente em alguns pontos, é porque a esquerda guinou à direita. À direita do CDS de Freitas de 75. Aos reaccionários, colonialistas, ultramarinos, como lhes chamava a extrema-esquerda de então...

19.2.04

Adopção


Sobre a adopção de crianças por homossexuais, e depois de lidos os posts do De Direita e do Barnabé, foi bom encontrar o equilíbrio no Liberdade de Expressão, que tocou no ponto que me parece essencial: o direito das crianças.

Quando falamos de adopção, no seu sentido mais lato nele incluindo casais heterossexuais ou homossexuais, falamos na co-existência de dois direitos, isto é, do direito das crianças em terem uma família e o direito dos casais adoptarem uma criança. Entre estes dois direitos, aquele que prevalece é, sem dúvida, o direito da criança. É com base nessa perspectiva que pode e tem de ser encarada a política de adopção.

Isto significa que ninguém pode ter o direito de sujeitar uma criança a um ambiente que lhe é nocivo, venha ele de casais heterossexuais ou de casais homossexuais. A questão que se coloca, neste momento, é: um casal homossexual tem direito a adoptar uma criança se objectivamente demonstrar com base nos parâmetros comuns que serão uma família capaz de a albergar?

Ora, num momento em que nem os casais heterossexuais conseguem fazer valer a sua idoneidade e em que a adopção continua a ser vista preconceituosamente, é perfeitamente natural que existam muitas resistências sociais à adopção por casais homossexuais. Basta ver como os Tribunais têm sistematicamente rejeitado soluções de adopção para perceber como até a adopção por casais heterossexuais se mostra um calvário. Daí que não me choca, sou sincero, que a adopção por casais homossexuais seja ainda vista com relutância visto que a própria adopção o é.

Efectivamente ainda não se consegue descortinar a influência de um casal homossexual numa criança. Não me preocupa o facto de essa influência poder ir no sentido de direccionar a sexualidade da criança, mas antes o facto de, direccionando, ir provocar traumas na criança. Não porque ser homossexual deva ser causa de vergonha, mas porque infelizmente ainda o é.

O mesmo é dizer que a plena aceitação da homossexualidade se vai fazer, bem ou mal, por passos graduais. E a adopção de crianças será talvez um dos últimos passos.

Presidenciais I


A grande maioria dos comentadores políticos e dos bloguistas tem desvalorizado as capacidades de Santana Lopes para exercer o cargo de Presidente da República. Estou seguramente de acordo e junto a minha voz a essa desvalorização. Mas uma coisa é desvalorizar as capacidades intelectuais de Santana e outra é desvalorizar as suas capacidades eleitorais.

Quem lê o artigo de Pacheco Pereira no Público (que nesse aspecto resume bem tudo o que tem sido escrito na blogosfera sobre o assunto) cai na ilusão de que Cavaco chega, acena e ganha confortavelmente as eleições presidenciais. Para essa ilusão contribui igualmente o facto de o próprio Cavaco acreditar nessa tese de D. Sebastião. Diga-se em abono da verdade que as actuais sondagens que colocam Cavaco no topo das preferências vão igualmente nesse sentido, e que portanto contrariam o que vou escrever de seguida.

Cavaco está no topo das sondagens porque anda calado. Cavaco é conhecido por dizer o contrário do que as pessoas querem ouvir. Por dizer o que pensa da forma mais severa, crua e fria. Por ser incapaz de demonstrar um sentimento em público. Cavaco é um excelente político de acção. Mas os portugueses não estão habituados nem querem um Presidente que seja um político de acção. Os portugueses preferem uma figura de que gostem.

Nenhum eleitor no seu perfeito juízo gosta de Cavaco. Os eleitores confiam em Cavaco, o que é muito diferente. Dir-se-á que a campanha eleitoral pode ajudar a colmatar essa falha de Cavaco. Mas a campanha eleitoral vai precisamente acentuar essa ideia. Cavaco não sabe nem quer mentir. Cavaco pensa que conseguiu tudo na vida sendo como é e é assim que se vai apresentar ao eleitorado. E quantos mais comentadores e analistas tiver a confirmar essa ideia, mais Cavaco se vê na pele do competente técnico que pela frontalidade intelectual alcança a vitória.

Por isso Cavaco alimenta o tabu. Ele quer ser recebido pela multidão, não porque seja narciso como Santana, mas porque acredita verdadeiramente que é essa a imagem que as pessoas têm dele. E é. Mas não para ser Presidente da República.

Mário foi um desastroso Primeiro-Ministro que não deixou saudades a ninguém. Mas quando apareceu como candidato a Presidente, logo os portugueses distinguiram os cargos e nele reconheceram as qualidades humanas necessárias para ser Presidente. Com Cavaco as coisas vão passar-se ao contrário. Cavaco foi o governante mais reconhecido que Portugal já teve. Duas maiorias absolutas comprovam-no. Mas tal como em 1986, os portugueses distinguem o cargo e não transferirão o voto sem mais.

Posto isto, tenho de esclarecer que Cavaco Silva é, de todos os nomes que já se falaram, o meu candidato presidencial. Não é seguramente o melhor candidato possível, porque temo que os que o apoiam estejam mais saudosos de um bom Primeiro-Ministro do que propriamente de um bom Presidente.

Mas sendo Cavaco o meu candidato, e como bom treinador de bancada que sou, custa-me ver que os erros da primeira candidatura se estejam a repetir. Desde o tabu a até esta imagem de distanciamento passando pela elite que o apoia realçando apenas o seu perfil técnico quando os portugueses vão querer ouvir falar de perfil humano.

Diz Pacheco Pereira que a oposição mostra uma grande indiferença face à candidatura de Santana Lopes. Essa indiferença contribui para alimentar a bolha de ar que envolve Cavaco e que rebentará quando Guterres se candidatar (a questão da total desvalorização eleitoral que tem sido feita de Guterres e outra questão, que deixo para outro post) e é por isso que o PS insiste no silêncio. Cavaco é um candidato difícil de derrotar no campeonato da competência, mas mostra-se bem mais fácil de vencer no campeonato da humanidade.

18.2.04

Desistência


O Flor de Obsessão fechou as suas portas. Junto a minha voz a todos os que lamentam a decisão do Pedro. Mas gostava de recordar uma questão que aqui deixei nos primeiros dias do blogue:

Será que a blogosfera política de direita criou um monstro que não consegue já controlar? Será que os bloguistas de referência dessa direita (nova ou velha, mais ou menos liberal) vão conseguir manter-se na teorização, resistindo aos apelos que vão começar a chegar em cada vez maior número de intervenção? Será que os grandes e melhores bloguistas de direita sabem que a condição de bloguistas está a ficar mais desajustada do que nunca, que são interpelados para mais?

Penso que a saída de cena do Pedro Lomba e o afrouxamento de alguns dos mais influentes blogues de direita parecem indicar que os melhores bloguistas não se souberam adaptar ao que deles se exigia. Que era cada vez mais.

Esta era, aliás, uma das questões acerca das quais gostaria de ter escrito, em resposta ao desafio do Bloguítica acerca da blogosfera daqui a um ano. Infelizmente, o trabalho não permitiu.

16.2.04

Translations


O Terras do Nunca chama a atenção para as traduções dos títulos de filmes que se vão fazendo em Portugal e no Brasil. O melhor exemplo continua, para mim, a ser o nosso inocente Música no Coração. Os brasileiros não resistiram e traduziram por "A Noviça Rebelde". Imaginem só, Á Nóviçá Rébéudji...

Dá um certo ar "pornô", não dá??

A moda pegou


Desta vez foi Ferro Rodrigues a dizer que Durão Barroso tem uma linguagem muito antigo regime.

Para quando uma oposição a sério???

E esta, hein??


Na sua entrevista ao Expresso, Santana Lopes veio colocar o dedo na ferida: como pode Cavaco Silva unir a direita se se recusa a estar lado a lado com o presidente do CDS?

A questão é interessante. Vejamos o lado de Paulo Portas.

1) Paulo Portas quer um candidato vencedor para que ele possa ser parte integrante dessa vitória. Se o conseguir, participa no sonho de Sá Carneiro feito realidade. Depois de conseguir levar o CDS ao governo, consegue contribuir para a maioria, o governo e o presidente.

2) Paulo Portas apoiou Cavaco em 1995 e pode perfeitamente aparecer apoiando o Professor sem que alguma incoerência lhe possa ser apontada.

Assim sendo, o CDS está numa posição confortável. Apoiará o candidato que o PSD escolher, podendo ser Santana ou Cavaco. E o PSD escolherá o candidato que maiores possibilidades de vitória tiver.

Vejamos agora o lado de Cavaco Silva.

1) Cavaco só ganha com o apoio do CDS e de Paulo Portas.

2) Cavaco não conseguirá fazer uma campanha inteira sem ter que se cruzar com Paulo Portas, sem ter que elogiar o CDS e sem ter que expressar o que sente por Paulo Portas. Cavaco sabe que não consegue disfarçar o que sente pelo partido que tentou aniquilar e pelo seu actual líder e sabe que isso comprometerá a estratégia de vitória.

Querem ver que Cavaco Silva se vê impedido de concretizar um sonho por causa de Paulo Portas? Querem ver que, depois do Independente, Portas volta a meter-se no caminho de Cavaco? Só que, desta vez, Portas está com cara de anjo, assobiando para o ar. E pior do que isso, pode dizer que está onde sempre esteve.

Ficamos assim à espera de ver Cavaco está disposto a engolir o sapo. E se está disposto, então será uma desiusão. Sempre pensei que Cavaco preferisse a coerência ao poder...

Quoque tu, JAL?


No Expresso da semana passada, José António Lima disse expressamente que o CDS era um partido de extrema-direita. No Expresso desta semana, José António Lima disse expressamente que o Ministro Morais Sarmento exagerara na forma como classificara o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda. Parece que ficou incomodado com as chamadas de atenção que Sarmento fez às ideologias preconizadas sobretudo pelo PCP e pelo Bloco.

A mania de considerar que à esquerda todo o espaço é democrático e à direita só a social-democracia pode ser aceite é uma mania nacional que sempre grassou pela nossa imprensa. Mas foi a primeira vez que vi o Expresso assumir que tudo o que for à direita do PSD é de extrema direita. Registe-se o facto para poder confrontar José António Lima com as considerações ultra-positivas que fará de Monteiro aquando das europeias...

10.2.04

Estratégias...


A Grande Loja e o Bloguítica parecem achar que Durão Barroso assumiu já a derrota da maioria nas eleições europeias. Não me parece. Penso até que a maioria vai ganhar as eleições europeias e que a estratégia é outra. É que, se ganhar as eleições, Durão Barroso vai poder dizer:

a) ao país, que o PS não consegue apresentar um projecto mobilizador, mesmo quando parte em vantagem e com miragem de vitória;
b) ao PSD, que ele é o líder que muitos teimam em não reconhecer, e que se prepara para cumprir o sonho de Sá Carneiro de “um governo, uma maioria e um presidente”;
c) ao PS, que Ferro Rodrigues é o melhor presente que o PSD recebeu nos últimos anos;
d) ao CDS, que apenas a sua diluição no PSD permitirá aos centristas continuar a usufruir das regalias do poder.

Elenco Fixo


Sousa Franco, Ana Gomes, António Costa, António José Seguro, Sérgio Sousa Pinto, Edite Estrela, Fausto Correia e Capoulas Santos são, ao que parece, os candidatos do PS ao Parlamento Europeu. Convenhamos que a lista era previsível, tendo em conta que os elencos que o PS e o PSD habitualmente apresentam às eleições europeias têm insistido sempre no mesmo estilo de figurinos. Senão vejamos:

1) Temos o tipo em busca do exílio dourado: Sousa Franco;
2) Temos a figura incómoda que ninguém consegue calar: Ana Gomes;
3) Temos o tipo que quer desenfreadamente desaparecer por uns tempos a ver se o reabilitam: António Costa;
4) Temos os ex-presidentes de Jotas que ninguém sabe muito bem onde colocar: António José Seguro e Sérgio Sousa Pinto;
5) Temos a autarca que necessita de ser premiada: Edite Estrela (Sintra).
6) Temos os ex-governantes sem talento para gestores milionários que precisam de encaixar em algum lugar: Fausto Correia e Capoulas Santos.

Para terminar só falta mesmo o “independente simbólico” que costuma aparecer para dar um ar de seriedade à lista e o representante das ilhas.

Não acreditam que este figurino seja universal? Vejamos a lista do PSD nas últimas eleições:

1) Temos a figura incómoda que ninguém consegue calar: Pacheco Pereira;
2) Temos o tipo em busca do exílio dourado: Vasco Graça Moura;
3) Temos o “independente simbólico”: Teresa Almeida Garrett;
4) Temos o ex-governante sem talento para gestor milionário que precisa de encaixar em algum lugar: Arlindo Cunha;
5) Temos os ex-presidentes de Jotas que ninguém sabe muito bem onde colocar: Jorge Moreira da Silva e Carlos Coelho;
6) Temos os representantes das ilhas: Carlos Costa Neves (Açores) e Sérgio Marques (Madeira);
7) Temos o autarca que necessita de ser premiado: Fernando Reis (Barcelos)


Ainda há dúvidas de que as listas do PS e do PSD são mais previsíveis que os dias da semana?

6.2.04

Melting pot


No Semanário Francisco Louçã afirma que o Bloco de Esquerda está mais interessado nos projectos políticos do que nas alianças preferenciais. Quem o ler até se esquece que o Bloco de Esquerda resulta de uma coligação entre o PSR e a UDP e que estes partidos sempre tiveram projectos políticos antagónicos.

E não é que o entrevistador de Louçã até lhe pergunta se será mais fácil fazer uma coligação com o PS ou com o PCP? Senhor entrevistador, depois de uma coligação entre o PSR e a UDP, o Bloco está apto até a fazer coligações com o CDS...

Beijo da Morte


As possibilidades de António Vitorino chegar a Presidente da Comissão Europeia pela mão de um governo de centro e centro-direita e numa altura em que o centro e o centro-direita se preparam para estar em maioria na Europa são severamente diminutas. Porque é que o espaço não socialista iria desperdiçar a oportunidade de colocar um dos seus, provavelmente tão ou mais competente que Vitorino.

Se assim é, não percebo porque é que Vitorino se deixa levar por esta vertigem que o levará a lado nenhum, antes pelo contrário. Esta vertigem apenas beneficia o Governo.

Uma vez frustrando-se a possibilidade de ser Presidente da Comissão, o mais provável é que Vitorino não tenha grandes condições para se sujeitar ao que vai parecer um mero prémio de consolação, que é ser reconduzido no lugar de Comissário Europeu. E Durão Barroso ficará livre de indicar quem quiser.

2.2.04

Vai uma sopinha?


Porque é que Marcelo passa a vida a desvalorizar manchetes de jornais que constantemente lhe prometem o regresso a altos cargos, demorando largos minutos a desmenti-las e gastando a nossa paciência com juras de frugalidade política, obrigando milhares de pessoas que nem sequer as lerem a saber que elas existiram?

Como se ele não as imaginasse às Quintas-feiras, as comunicasse ao Saraiva às Sextas-feiras, as lesse aos Sábados e as comentasse aos Domingos.

Para quando uma nova Vichisoise?

Mais do mesmo...


Soares também acha que este é o governo mais à direita desde o 25 de Abril. E eu também continuo a considerar que a Engenheira Pintasilgo foi a mais sexy primeira ministra que Portugal já teve e que a Luísa Mesquita é a deputada mais sensual do PCP.

Sobre este assunto, vale a pena ler a Desesperada Esperança, o Virtualidades e o Valete Fratres.

O comentador Pimba


Perguntaram-me ontem o que eu considerava serem as marcas distintivas de um cantor pimba. Reflecti uns segundos e respondi mais ou menos isto:

Um cantor pimba é geralmente um cantor com voz bem preparada e treinada em muitas estradas, mas que cede à música fácil, ligeira e imediata. É um cantor que recorre às letras brejeiras, ao que as pessoas que o escutam querem mesmo ouvir. É um cantor que cede ao bom gosto para captar o maior número de pessoas possível. É um cantor que alimenta o espírito popular e os faz acreditar que estão mesmo a ouvir música. É um cantor que ornamenta a sua música com gestos enormes, despropositados, ridículos, numa tentativa de divertir as pessoas disfarçar a pobreza do que canta.

Ontem à noite, umas horas depois desta conversa sobre cantores pimbas, dei por mim a escutar Marcelo Rebelo de Sousa.

É um homem culto, bem preparado, muito inteligente e cheio de experiência. Mas cede aos comentários fáceis, ligeiros e imediatos. Recorre a piadas e assuntos brejeiros (o futebol não é um assunto brejeiro, mas Marcelo usa o tema do futebol como tentativa brejeira de agarrar o espectador). É um homem que diz sobretudo o que a maioria das pessoas quer ouvir. Cede aos temas mais importantes para falar de temas que verdadeiramente não interessam para não perder audiências (outra vez o futebol...). Faz acreditar quem o está a ouvir que o que ele acha que é, é mesmo. Ornamenta os seus comentários com gestos enormes, despropositados, ridículos numa tentativa de fazer divertir as pessoas e disfarçar a pobreza do que comenta.

Não há dúvidas, se existe uma categoria de comentadores pimba, Marcelo é o Rei.