15.3.04

Mentiras


Vem sendo dito que Aznar e o PP mentiram ao povo espanhol.

Vamos ver, agora com Zapatero no poder, quem é que mentiu. Vamos ver o que Zapatero vai mudar. Vamos ver o que Zapatero vai fazer de diferente. É que Aznar não mentiu quando se dispôs a seguir as suas convicções sobre a melhor forma de combater o terrorismo. Mesmo quando se tratou de assumir uma política verdadeiramente impopular e que não lhe trouxe grandes dividendos.

Vamos então ver Zapatero em acção. Vamos ver o que ele faz para combater o terrorismo de que a própria Espanha foi alvo. E então poderemos ver quem mentiu.

A vitória do PSOE


Os socialistas ganharam democraticamente as eleições em Espanha. Os resultados eleitorais espanhóis reflectem rigorosamente o que se passaria em qualquer país do Mundo que tivesse sofrido um atentado e tivesse tido o maior partido político da oposição a fazer oposição desonesta.

Não posso por isso alinhar com o Faccioso quando chama ao eleitorado espanhol de mente pequenina porque, sem cair numa versão paternalista da coisa, o que verdadeiramente seria desejável é que os políticos fossem uma elite, e que essa elite fosse responsável. Os socialistas espanhóis não são nem elite nem responsáveis, e o resultado eleitoral não pode surpreender ninguém. Tivesse havido um lapso maior de tempo e provavelmente o PP teria tido tempo de explicar, pela enésima vez, e agora com exemplos vivos, a sua política. Não teve tempo perante a enxurrada de propaganda e de manifestações, e os resultados são, por isso, naturais.

Com estes resultados, a Espanha e a Europa ficam a perder. Mas sobretudo, quem mais perde é cultura da Paz. Porque o terrorismo ganhou mais do que uma simples batalha, quando lhe foi oferecida a possibilidade de alterar um resultado eleitoral, e quando consegue fazer espalhar a brilhante tese de que é melhor estar quietinho para não levar com uma bomba em cima (leia-se, vamos ceder ao terrorismo para não sermos sua vítimas).

Mas não posso dizer, como penso resultar do texto do Jaquinzinhos, que a vitória do PSOE seja uma vitória do terrorismo. A vitória do PSOE não passa disso mesmo: vitória do PSOE sobre o PP. Mas não porque o PP tenha mentido mais do que o PSOE. Apenas porque um atentado que não tem perdão ceifou a confiança de um povo e alterou a vida de todos, e portanto a forma de cada um encarar a realidade.

Mas que o terrorismo sai em grande destes resultados, lá isso sai. Não porque o PSOE venceu, mas porque pululam por este Mundo fora considerações absolutamente criminosas sobre a forma de reagir ao terrorismo e que aproveitam o resultado eleitoral dos espanhóis para fazer comprovar a sua tese. Basta ver as declarações criminosas de Ana Gomes, que vinculam o PS, para perceber o perigo que este resultado trouxe ao Mundo. Não porque o PSOE tenha ganho, nem o PP tenha perdido, mas porque muitas luminárias começam a sentir-se donas da razão quando legitimam actos terroristas.

Descrédito mesmo


O Descrédito chama-me de marialva, algo que não sou, e passa completamente ao lado das críticas que lhe faço (pelo menos, a um dos seus autores): com aquele discurso, sai completamente legitimado o atentado de Madrid. Caso Arrumado, mesmo.

12.3.04

Covardia


O Descrédito apresenta-nos a típica argumentação covarde que sempre aparece nestas ocasiões de actos terroristas. Covardia porque acha que Portugal fazia melhor em estar calado perante as atrocidades mundiais por forma a não estar no alvo das organizações terroristas.

Para o Descrédito, Portugal deve temer organizações terroristas, sujeitando-se a elas, para não sofrermos ataques terroristas. Para o Descrédito, e por analogia, o governo espanhol deveria negociar com a ETA, para evitar atentados. Para o Descrédito, e por analogia, Xanana Gusmão é um tolo, que se atreveu a provocar os Indonésios e a prolongar uma situação de insustentáveis massacres, devendo estar a pesar-lhe na consciência o número de mortos daqueles que se bateram com ele e por ele.

Covardia, porque o Descrédito ignora que há valores pelos quais não se pode transigir.

Ana Gomes e Carmelinda Pereira


Sempre que acontecem actos terroristas como este que vimos em Madrid, vemos aparecer as mais lunáticas teses, habitualmente destinadas a sacudir água do capote e a diabolizar os suspeitos do costume. Normalmente, essas teses são defendidas por jornalistas ignóbeis, gente desprovida de cérebro provenientes de organizações estranhas ou membros de partidos radicais. Veja-se o caso de Diana Andringa que se atreveu a considerar o 11 de Setembro como obra dos americanos...

O que não estávamos habituados é que essas teses viessem de um dos dois maiores partidos portugueses. Ontem, na SIC Notícias, Ana Gomes colocou o PS no lote de partidos de polichinelo. Ontem, o PS desceu ao nível dos lunáticos do costume. Ontem, o PS sujeitou-se a ser uma partido alternativo ao arco democrático, a que sempre pertenceu.

Caro Ferro Rodrigues: não basta mandar a Ana Gomes para Bruxelas. É preciso expulsar essa senhora. Afinal de contas, qual é a diferença entre ela e Carmelinda Pereira?

Nojo


Terrorismo é das palavras mais completas que conheço. Vale por si, sem precisar de adjectivos ou sujeitos.

Pode o Bloco de Esquerda vir pretender colocar os seus habituais “mas”, colorir a palavra com adjectivos que “sacodem a água do capote” e inventar sujeitos “menos incómodos” e que não se encontram nas listas telefónicas dos telemóveis dos bloquistas.

Mas "terrorismo", caros senhores, basta por si. Tenham vergonha na cara.

5.3.04

Arrumações


Se bem percebo a arrumação de links do The Bull and Bear, este Vosso Caso Arrumado ficou classificado na esquerda.

Já li e reli todos os posts aqui colocados e só vejo um post que possa ter levado a essa conclusão: o post em que falei sobre Ana Gomes e não a chamei de histérica.

Pois bem, aqui fica: Ana Gomes é histérica.

3.3.04

Quem diria?


Rui Tavares no Barnabé escreve considerações interessantes no que concerne ao sequestro dos partidos portugueses por minorias de activistas irredutíveis que chantagem emocionalmente as lideranças políticas. O mote foi, claro, o CDS.

Mas do texto de Rui Tavares parece omitir-se que no PSD há muita gente agradada com o ritmo ideológico que o CDS está a impor a esta coligação. Durante anos e anos várias personalidades do PSD viram-se obrigadas a silenciar as suas convicções em nome do centrão, do relativismo ideológico e do pragmatismo eleitoral. Mais do que isso, muitas das personalidades que o PSD actualmente tem situam-se na área do CDS mas optaram pelo PSD pela sua vocação de poder, tendo em troca que se abster de tecer certos comentários, sobre certas matérias. Basta ver os artigos publicados por muitos deles, defendendo com aprumado rigor, as convicções que sempre tiveram mas que durante anos ficaram por conta do CDS.

Por outro lado, o texto omite que a realidade que atribui ao CDS é perfeitamente identificável em todos os sistemas políticos e que, em Portugal, o fenómeno é igualmente identificável à esquerda. O Bloco de Esquerda funciona, para a esquerda, como o CDS para o PSD. O Bloco de Esquerda marca a agenda do PS através da chantagem emocional, uma espécie de “ser de esquerda é ser como o Bloco”. E, tal como no PSD, há muita gente no PS agrada com o ritmo ideológico que o Bloco de Esquerda está a impor à esquerda, apesar de não haver qualquer coligação. Muitos andaram silenciados durante anos e quase nada fizeram pelas causas do Bloco, que tão afanosamente agora defendem. Muitas das personalidades do PS estão aliás bem mais próximas do Bloco que do PS. Mas a vocação de poder do PS exerce um fascínio considerável.

O Bloco é baluarte dos valores de uma certa esquerda, da mesma forma que o CDS o é de direita. Daí que o potencial de crescimento do Bloco é o mesmo que o do CDS, ainda que atenuado pela presença do PCP. São dois partidos que exercem funções semelhantes e sempre que o Bloco de Esquerda critica as funções que o CDS exerce no campo ideológico, está a negar-se a si próprio.

Pena de morte


A Charlotte lançou a questão da pena de morte. É um tema estafado em vários filmes, livros, relatórios da Amnistia Internacional etc... Mas sempre que vejo o tema tratado, defendendo uma ou outra solução, escapa-lhe uma perspectiva mais arreigada aos princípios que norteiam a codificação penal. É com isso que pretendo contribuir.

O ordenamento penal deve, em primeiro lugar, cuidar de responder a uma questão: quais os valores que devem ser defendidos e tutelados. A resposta a esta questão permite definir quais os actos ou omissões que devem ser punidos, isto é, os crimes.

A segunda questão que o ordenamento penal deve responder é a de saber qual o objectivo ou objectivos (e sendo vários, com que hierarquia) que devem presidir à condenação de todos os sujeitos que, por actos ou omissões, praticam um crime, isto é, os criminosos. A resposta a esta questão permite definir as penas bem como a estruturação do edifício processual do direito penal.

São dois momentos autónomos, que necessitam de respostas autónomas. A pergunta que a Charlotte nos faz situa-se, quanto a mim, no segundo plano, porque bule essencialmente com o grau da pena. É legítimo punir com a morte, ainda que reservando essa pena a um conjunto delimitado de crimes que mereçam especial censura?

Tenho para mim que os objectivos da condenação dos criminosos devem ser, por esta ordem:
1) dissuasão na prática de crimes
2) modelação do comportamento social
3) imposição desse modelo comportamental ao criminoso
4) punição pelo crime

Isto significa que, no meu entender, o ordenamento penal deve estar estruturado de forma a ser um elemento de dissuasão e, portanto, de segurança. O mesmo é dizer que as penas previstas devem ser desenhadas de forma a alcançar este objectivo. Devem ser penas eficazes e não meramente simbólicas. Até aqui, a pena de morte pode justificar-se, dado o seu eventual maior poder de dissuasão.

Ao dissuadir a prática de crimes, o ordenamento penal impõe um modelo de comportamento civilizacional. Não estamos no campo da moral. Não estamos no campo do dever ser. Estamos, isso sim, no conjunto de regras e princípios por que se rege uma sociedade e que resultam impostos a quem os pretende violar. O mesmo é dizer que as penas previstas devem variar de acordo com a violação das regras basilares ou menos basilares da vida em sociedade e que, ao mesmo tempo, devem significar uma resposta dentro do modelo que impõem. Aqui tenho de afastar a pena de morte. Se com o ordenamento penal eu pretendo impor, ao criminoso e à sociedade, um determinado modelo, não posso evidentemente responder com penas que extravasam o âmbito do modelo em imposição.

É que, e há muita gente que se esquece desta parte, quando se pune um criminoso, estamos a praticar um acto que envolve a abrange toda a sociedade. É um sinal que é dado para fora. Não termina com a prisão ou a execução do condenado. Tem reflexos sociais importantes. Mais importantes até que a punição em si do criminoso.

Daí que entenda que em terceiro lugar vem a imposição desse modelo ao criminoso, mas só depois da imposição à sociedade em si.

Apenas no fim vem o objectivo de punir o criminoso. Quando digo que vem em último lugar, não pretendo dizer que punir um criminoso é irrelevante ou sequer pretendo criar circunstâncias desculpantes. Acho a punição um elemento essencial ao qual não nos devemos furtar. Os criminosos têm de ser punidos.

Ora, da hierarquização que fiz dos objectivos que para mim devem ser prosseguidos pelo ordenamento penal, não me permito incluir a pena de morte no catálogo de penas aplicáveis, pelos motivos que já ficaram ditos.

Esta é uma visão puramente jurídica, sem entrar, quanto a mim, em grandes considerações morais ou filosóficas. E é esta a visão que penso dever ser atribuída a esta questão.

2.3.04

Não estou só!


O Neptuno manifestou, no seu post Vagalhão de Fundo, uma opinião bastante semelhante à que aqui e aqui já tinha deixado acerca de um possível duelo presidencial entre Cavaco e Guterres.

Por momentos, achei que fosse a única pessoa a reconhecer a Guterres a sua mais do que certa vitória contra Cavaco.

Piadas


Muito engraçados estes movimentos contra a despenalização do aborto: acham mal que se contem votos em referendo, mas discutem números de assinaturas em petições, diz o Ivan.

Tenho para mim que muito engraçados são os movimentos a favor da despenalização do aborto que andam à cata de assinaturas precisamente porque não tiveram votos.

E já agora, que movimentos pró e contra são estes, que mais não parecem direcções de partidos, esses com agenda e competências para levar o assunto a AR sem necessidade de assinaturas?

The End IV


Os partidos que fundaram o Bloco de Esquerda (BE), UDP, PSR e Política XXI preparam-se para deixar de existir enquanto partidos.

Francisco Louçã já veio desmentir a influência da fusão de alguns dos melhores blogues de direita na decisão de acabar com a UDP, PSR e Política XXI.

The End III


Os partidos que fundaram o Bloco de Esquerda (BE), UDP, PSR e Política XXI preparam-se para deixar de existir enquanto partidos.

Fontes seguras dizem-me que Freitas do Amaral foi convidado para participar na fusão de marxistas-leninistas e trotskistas. Ao que parece, recusou porque o Bloco ainda não decidiu se gosta mais dele ou da Pintasilgo.

Que é feito de si? II


Badaró andou durante anos a fazer palhaçadas disfarçado de Avelino Ferreira Torres sem que ninguém tivesse dado por isso.

Que é feito de si?


Carmelinda Pereira esteve no governo britânico durante anos sem que ninguém percebesse a sua nova identidade: a de Claire Short.

Ana Sá Lopes


Fontes seguras dizem-me que o Inimigo Público está a pensar contactar Ana Sá Lopes para a redacção.

The End II


Os partidos que fundaram o Bloco de Esquerda (BE), UDP, PSR e Política XXI preparam-se para deixar de existir enquanto partidos.

E o que é eles fizeram ao marxismo-leninismo e ao trotskismo? Prepararam-se para acabar com eles como ideologias fundadoras, ou pretendem misturar tudo no BE?

The End


Os partidos que fundaram o Bloco de Esquerda (BE), UDP, PSR e Política XXI preparam-se para deixar de existir enquanto partidos.

Porque é que eles não acabam logo com tudo de uma vez?

25.2.04

Valores


Li o post de Ana Gomes sobre o aborto e em resposta a um artigo de Telmo Correia. Como já aqui disse, tenho várias dúvidas sobre o assunto e em alguns casos fui forçado a concordar com as observações de dirigente do PS, ainda que descontando algum tom passionário que me falta.

No entanto, Ana Gomes fez-me recordar porque tenho tanta dificuldade em aderir à descriminalização do aborto quando diz que defende “o direito à vida, com qualidade e perspectivas de futuro decente”.

Esta ideia de que só uma vida decente é vida faz-me extrema confusão e escapa-me dos meus quadros civilizacionais. Utilizemos esta ideia no caso de Timor, por exemplo, causa em que Ana Gomes tanto se notabilizou.

Se ficasse provado que Timor não tinha efectivas condições de sobreviver economicamente como país independente. Se ficasse provado que a Indonésia, aceitando todas as regras, instituía uma regime democrático e económico que fosse vantajoso para Timor, ainda assim continuaria a lutar por um Timor independente? (Acham a comparação estúpida ou ridícula? Vejam o que Mário Soares diz em Portugal Amordaçado)

Penso que a resposta de Ana Gomes, ao contrário da que foi dada por Mário Soares no seu livro, seria que sim. Que continuaria a lutar pela independência de Timor.

Porque há valores que não se vendem. Há valores que se impõem sobre os restantes.

23.2.04

Independências


Não existe partido que não procure alargar-se aos independentes. O objectivo é um contra-senso porque a verdadeira motivação dos partidos políticos ao buscarem independentes é precisamente negarem-se a si próprios.

Comecemos pelo princípio. Um independente é supostamente uma figura da sociedade civil que, pelos méritos demonstrados na sua vida profissional, pode emprestar uma credibilidade e uma agilidade ao partido que o acolhe. É um sinal de aproximação à sociedade que escapa aos vícios partidários, às quotas das distritais, às cunhas e aos favores.

Melhor seria, claro, que os partidos corrigissem os vícios que têm e soubessem encontrar nos seus quadros, sem quaisquer pressões, os nomes mais indicados para cada lugar, de acordo apenas com o mérito. Mas em vez disso preferem ter 90% das listas preenchidas com candidatos indicados pelas diversas quotas, e apenas 10% de independentes, também eles uma quota. Melhor seria que prescindissem dos independentes e optassem por fazer listas com 100% de militantes, sendo 90% destes escolhidos pelo mérito. Isso sim, seria um sinal de abertura à sociedade civil.

Porque, nos actuais termos, os independentes não são independentes. Há vários estilos:

1) O independente que nunca se deu ao trabalho de filiar, mas que toda a gente sabe que está na órbita desse partido: caso de Teresa Lago, Teresa de Almeida Garrett ou Rosado Fernandes;
2) O independente que nunca se filiou para poder ostentar o título de descomprometido apesar de estar comprometido como os outros todos: caso de Elisa Ferreira;
3) O independente que gosta da independência para lhe permitir saltitar de um lado para o outro, com pretensa autoridade porque já apoiou os adversários: caso de Eduardo Prado Coelho;
4) O independente que não lhe convém filiar porque tem profissões que não deviam permitir filiação: caso de Vicente Jorge Silva, Maria Elisa ou Manuela Moura Guedes;
5) O independente que se filia 10 minutos depois: caso de Ana Gomes ou Maria José Nogueira Pinto.
6) O independente que vai à política buscar contactos para a sua vida profissional: caso de Luís Duque.
7) O independente que nunca imaginou ser convidado mas que adorou a honra: caso de Ribeiro Cristóvão ou Rosa Mota.

Um independente no verdadeiro sentido termo, um homem com mérito que se interessa pela coisa pública e que tem capacidades para governar é habitualmente um militante do seu partido que se viu impedido de exercer qualquer função para que não entrou nos esquemas.

Assim, em época de elaboração de listas e numa altura em que a Europa é ainda uma incógnita para os portugueses, roga-se aos principais partidos que descubram os melhores dos melhores e que não pretendam enganar, como sempre, o povo eleitor.

Presidenciais II


O Bloguítica discorda quando digo que Cavaco só está no topo das sondagens porque anda calado. Se assim fosse, Guterres, que anda calado, também estaria no topo das sondagens.Acontece que eu penso que Guterres anda tão em baixo nas sondagens precisamente porque anda calado. Assim que começar a intervir no seu tom e no seu estilo de assuntos, Guterres subirá nas sondagens. Um ganha se estiver calado e o outro se estiver em campanha. Ora, se para ser Presidente é necessário uma campanha, Guterres tem mais condições de ganhar as eleições.

É curioso ver como Guterres tem sido tão desvalorizado eleitoralmente nos últimos tempos. E tem sido desvalorizado com o mesmo argumento que tem suportado Cavaco, isto é, o desempenho como Primeiro Ministro. Acontece que os portugueses têm feito essa distinção e não hesitam em votar no candidato que se mostrar mais afectuoso com o povo. É assim que os portugueses vêem o Presidente. E Guterres encaixa-se perfeitamente nessa figura. Aliás, esse é o único cargo em que, tal como ele é exercido em Portugal, Guterres se encaixa.

A esquerda que abomina o centro e que domina tudo quanto é opinião publicada tem feito um esforço sobre-humano para criar a sensação de que Guterres não é desejado nem pelos portugueses nem pela esquerda. A direita, que abominou o estilo “dolce fare niente” de Guterres não quer sequer ouvir falar dele esquecendo-se que, caso seja um Presidente proveniente da esquerda, o melhor mesmo é que ele não faça e não queira fazer nada. E com esta conjugação de vontades, Guterres parece um moribundo eleitoral. Parece-me um contra-senso. Uma realidade fabricada que não corresponde à realidade. Guterres é o único candidato de esquerda que pode ganhar as eleições. Contra Cavaco e contra Santana. E a esquerda sabe disso e anda desesperada a querer encontrar outro candidato. Mas não vai encontrar.

Tudo isto são especulações. Mas veremos daqui a um ano quem é que são os candidatos e quem vai estar à frente nas sondagens.

A esquerda de Freitas


É engraçado ver como a Esquerda tende a divinizar Freitas do Amaral, agora que ele aparece de braço dado com Louçã. E é engraçado como essa regeneração do senhor professor é acompanhada de acusações aos ex-companheiros de partido de Freitas do Amaral que, tão mauzinhos e incoerentes que eles são, não percebem que foram eles que viraram à direita e Freitas à esquerda. Este é o resumo do post do Barnabé que, de forma geral, espelha tudo o que a esquerda pensa sobre Freitas.

Daniel Oliveira diz em síntese que Freitas não saiu do sítio e se manteve tal qual era há 20 anos ao contrário dos restantes membros do CDS que guinaram à direita. Em primeiro lugar, um homem que mantenha as mesmas posições sobre todos os assuntos que mantinha em 1974 parece-me um caso de insanidade. O país de 74 era outro e as necessidades eram outras e a politização que então se vivia exigia um conjunto diferente de perspectivas. Vejam-se os trotskistas do Bloco de Esquerda. Agora defendem a Europa e até a Nato, talvez inspirados pelo federalismo de Freitas. O mundo mudou e exigiu que o acompanhássemos. Quem o acompanhou, seja por que rumos, mostrou-se capaz de perceber o futuro. Quem o não fez, agarrou-se ao passado. Esse é o caso de Cunhal, a quem poderemos admirar a coerência, mas pouco mais do que isso em termos políticos. E pelos vistos, a considerar o que diz o Daniel Oliveira, é também o caso de Freitas.

Mas se o raciocínio de Daniel Oliveira estivesse correcto, então teríamos que continua-lo até chegar à conclusão que se Freitas está no mesmo sítio e se a comunhão entre Freitas e a esquerda tem sido evidente em alguns pontos, é porque a esquerda guinou à direita. À direita do CDS de Freitas de 75. Aos reaccionários, colonialistas, ultramarinos, como lhes chamava a extrema-esquerda de então...

19.2.04

Adopção


Sobre a adopção de crianças por homossexuais, e depois de lidos os posts do De Direita e do Barnabé, foi bom encontrar o equilíbrio no Liberdade de Expressão, que tocou no ponto que me parece essencial: o direito das crianças.

Quando falamos de adopção, no seu sentido mais lato nele incluindo casais heterossexuais ou homossexuais, falamos na co-existência de dois direitos, isto é, do direito das crianças em terem uma família e o direito dos casais adoptarem uma criança. Entre estes dois direitos, aquele que prevalece é, sem dúvida, o direito da criança. É com base nessa perspectiva que pode e tem de ser encarada a política de adopção.

Isto significa que ninguém pode ter o direito de sujeitar uma criança a um ambiente que lhe é nocivo, venha ele de casais heterossexuais ou de casais homossexuais. A questão que se coloca, neste momento, é: um casal homossexual tem direito a adoptar uma criança se objectivamente demonstrar com base nos parâmetros comuns que serão uma família capaz de a albergar?

Ora, num momento em que nem os casais heterossexuais conseguem fazer valer a sua idoneidade e em que a adopção continua a ser vista preconceituosamente, é perfeitamente natural que existam muitas resistências sociais à adopção por casais homossexuais. Basta ver como os Tribunais têm sistematicamente rejeitado soluções de adopção para perceber como até a adopção por casais heterossexuais se mostra um calvário. Daí que não me choca, sou sincero, que a adopção por casais homossexuais seja ainda vista com relutância visto que a própria adopção o é.

Efectivamente ainda não se consegue descortinar a influência de um casal homossexual numa criança. Não me preocupa o facto de essa influência poder ir no sentido de direccionar a sexualidade da criança, mas antes o facto de, direccionando, ir provocar traumas na criança. Não porque ser homossexual deva ser causa de vergonha, mas porque infelizmente ainda o é.

O mesmo é dizer que a plena aceitação da homossexualidade se vai fazer, bem ou mal, por passos graduais. E a adopção de crianças será talvez um dos últimos passos.

Presidenciais I


A grande maioria dos comentadores políticos e dos bloguistas tem desvalorizado as capacidades de Santana Lopes para exercer o cargo de Presidente da República. Estou seguramente de acordo e junto a minha voz a essa desvalorização. Mas uma coisa é desvalorizar as capacidades intelectuais de Santana e outra é desvalorizar as suas capacidades eleitorais.

Quem lê o artigo de Pacheco Pereira no Público (que nesse aspecto resume bem tudo o que tem sido escrito na blogosfera sobre o assunto) cai na ilusão de que Cavaco chega, acena e ganha confortavelmente as eleições presidenciais. Para essa ilusão contribui igualmente o facto de o próprio Cavaco acreditar nessa tese de D. Sebastião. Diga-se em abono da verdade que as actuais sondagens que colocam Cavaco no topo das preferências vão igualmente nesse sentido, e que portanto contrariam o que vou escrever de seguida.

Cavaco está no topo das sondagens porque anda calado. Cavaco é conhecido por dizer o contrário do que as pessoas querem ouvir. Por dizer o que pensa da forma mais severa, crua e fria. Por ser incapaz de demonstrar um sentimento em público. Cavaco é um excelente político de acção. Mas os portugueses não estão habituados nem querem um Presidente que seja um político de acção. Os portugueses preferem uma figura de que gostem.

Nenhum eleitor no seu perfeito juízo gosta de Cavaco. Os eleitores confiam em Cavaco, o que é muito diferente. Dir-se-á que a campanha eleitoral pode ajudar a colmatar essa falha de Cavaco. Mas a campanha eleitoral vai precisamente acentuar essa ideia. Cavaco não sabe nem quer mentir. Cavaco pensa que conseguiu tudo na vida sendo como é e é assim que se vai apresentar ao eleitorado. E quantos mais comentadores e analistas tiver a confirmar essa ideia, mais Cavaco se vê na pele do competente técnico que pela frontalidade intelectual alcança a vitória.

Por isso Cavaco alimenta o tabu. Ele quer ser recebido pela multidão, não porque seja narciso como Santana, mas porque acredita verdadeiramente que é essa a imagem que as pessoas têm dele. E é. Mas não para ser Presidente da República.

Mário foi um desastroso Primeiro-Ministro que não deixou saudades a ninguém. Mas quando apareceu como candidato a Presidente, logo os portugueses distinguiram os cargos e nele reconheceram as qualidades humanas necessárias para ser Presidente. Com Cavaco as coisas vão passar-se ao contrário. Cavaco foi o governante mais reconhecido que Portugal já teve. Duas maiorias absolutas comprovam-no. Mas tal como em 1986, os portugueses distinguem o cargo e não transferirão o voto sem mais.

Posto isto, tenho de esclarecer que Cavaco Silva é, de todos os nomes que já se falaram, o meu candidato presidencial. Não é seguramente o melhor candidato possível, porque temo que os que o apoiam estejam mais saudosos de um bom Primeiro-Ministro do que propriamente de um bom Presidente.

Mas sendo Cavaco o meu candidato, e como bom treinador de bancada que sou, custa-me ver que os erros da primeira candidatura se estejam a repetir. Desde o tabu a até esta imagem de distanciamento passando pela elite que o apoia realçando apenas o seu perfil técnico quando os portugueses vão querer ouvir falar de perfil humano.

Diz Pacheco Pereira que a oposição mostra uma grande indiferença face à candidatura de Santana Lopes. Essa indiferença contribui para alimentar a bolha de ar que envolve Cavaco e que rebentará quando Guterres se candidatar (a questão da total desvalorização eleitoral que tem sido feita de Guterres e outra questão, que deixo para outro post) e é por isso que o PS insiste no silêncio. Cavaco é um candidato difícil de derrotar no campeonato da competência, mas mostra-se bem mais fácil de vencer no campeonato da humanidade.

18.2.04

Desistência


O Flor de Obsessão fechou as suas portas. Junto a minha voz a todos os que lamentam a decisão do Pedro. Mas gostava de recordar uma questão que aqui deixei nos primeiros dias do blogue:

Será que a blogosfera política de direita criou um monstro que não consegue já controlar? Será que os bloguistas de referência dessa direita (nova ou velha, mais ou menos liberal) vão conseguir manter-se na teorização, resistindo aos apelos que vão começar a chegar em cada vez maior número de intervenção? Será que os grandes e melhores bloguistas de direita sabem que a condição de bloguistas está a ficar mais desajustada do que nunca, que são interpelados para mais?

Penso que a saída de cena do Pedro Lomba e o afrouxamento de alguns dos mais influentes blogues de direita parecem indicar que os melhores bloguistas não se souberam adaptar ao que deles se exigia. Que era cada vez mais.

Esta era, aliás, uma das questões acerca das quais gostaria de ter escrito, em resposta ao desafio do Bloguítica acerca da blogosfera daqui a um ano. Infelizmente, o trabalho não permitiu.

16.2.04

Translations


O Terras do Nunca chama a atenção para as traduções dos títulos de filmes que se vão fazendo em Portugal e no Brasil. O melhor exemplo continua, para mim, a ser o nosso inocente Música no Coração. Os brasileiros não resistiram e traduziram por "A Noviça Rebelde". Imaginem só, Á Nóviçá Rébéudji...

Dá um certo ar "pornô", não dá??

A moda pegou


Desta vez foi Ferro Rodrigues a dizer que Durão Barroso tem uma linguagem muito antigo regime.

Para quando uma oposição a sério???

E esta, hein??


Na sua entrevista ao Expresso, Santana Lopes veio colocar o dedo na ferida: como pode Cavaco Silva unir a direita se se recusa a estar lado a lado com o presidente do CDS?

A questão é interessante. Vejamos o lado de Paulo Portas.

1) Paulo Portas quer um candidato vencedor para que ele possa ser parte integrante dessa vitória. Se o conseguir, participa no sonho de Sá Carneiro feito realidade. Depois de conseguir levar o CDS ao governo, consegue contribuir para a maioria, o governo e o presidente.

2) Paulo Portas apoiou Cavaco em 1995 e pode perfeitamente aparecer apoiando o Professor sem que alguma incoerência lhe possa ser apontada.

Assim sendo, o CDS está numa posição confortável. Apoiará o candidato que o PSD escolher, podendo ser Santana ou Cavaco. E o PSD escolherá o candidato que maiores possibilidades de vitória tiver.

Vejamos agora o lado de Cavaco Silva.

1) Cavaco só ganha com o apoio do CDS e de Paulo Portas.

2) Cavaco não conseguirá fazer uma campanha inteira sem ter que se cruzar com Paulo Portas, sem ter que elogiar o CDS e sem ter que expressar o que sente por Paulo Portas. Cavaco sabe que não consegue disfarçar o que sente pelo partido que tentou aniquilar e pelo seu actual líder e sabe que isso comprometerá a estratégia de vitória.

Querem ver que Cavaco Silva se vê impedido de concretizar um sonho por causa de Paulo Portas? Querem ver que, depois do Independente, Portas volta a meter-se no caminho de Cavaco? Só que, desta vez, Portas está com cara de anjo, assobiando para o ar. E pior do que isso, pode dizer que está onde sempre esteve.

Ficamos assim à espera de ver Cavaco está disposto a engolir o sapo. E se está disposto, então será uma desiusão. Sempre pensei que Cavaco preferisse a coerência ao poder...

Quoque tu, JAL?


No Expresso da semana passada, José António Lima disse expressamente que o CDS era um partido de extrema-direita. No Expresso desta semana, José António Lima disse expressamente que o Ministro Morais Sarmento exagerara na forma como classificara o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda. Parece que ficou incomodado com as chamadas de atenção que Sarmento fez às ideologias preconizadas sobretudo pelo PCP e pelo Bloco.

A mania de considerar que à esquerda todo o espaço é democrático e à direita só a social-democracia pode ser aceite é uma mania nacional que sempre grassou pela nossa imprensa. Mas foi a primeira vez que vi o Expresso assumir que tudo o que for à direita do PSD é de extrema direita. Registe-se o facto para poder confrontar José António Lima com as considerações ultra-positivas que fará de Monteiro aquando das europeias...

10.2.04

Estratégias...


A Grande Loja e o Bloguítica parecem achar que Durão Barroso assumiu já a derrota da maioria nas eleições europeias. Não me parece. Penso até que a maioria vai ganhar as eleições europeias e que a estratégia é outra. É que, se ganhar as eleições, Durão Barroso vai poder dizer:

a) ao país, que o PS não consegue apresentar um projecto mobilizador, mesmo quando parte em vantagem e com miragem de vitória;
b) ao PSD, que ele é o líder que muitos teimam em não reconhecer, e que se prepara para cumprir o sonho de Sá Carneiro de “um governo, uma maioria e um presidente”;
c) ao PS, que Ferro Rodrigues é o melhor presente que o PSD recebeu nos últimos anos;
d) ao CDS, que apenas a sua diluição no PSD permitirá aos centristas continuar a usufruir das regalias do poder.

Elenco Fixo


Sousa Franco, Ana Gomes, António Costa, António José Seguro, Sérgio Sousa Pinto, Edite Estrela, Fausto Correia e Capoulas Santos são, ao que parece, os candidatos do PS ao Parlamento Europeu. Convenhamos que a lista era previsível, tendo em conta que os elencos que o PS e o PSD habitualmente apresentam às eleições europeias têm insistido sempre no mesmo estilo de figurinos. Senão vejamos:

1) Temos o tipo em busca do exílio dourado: Sousa Franco;
2) Temos a figura incómoda que ninguém consegue calar: Ana Gomes;
3) Temos o tipo que quer desenfreadamente desaparecer por uns tempos a ver se o reabilitam: António Costa;
4) Temos os ex-presidentes de Jotas que ninguém sabe muito bem onde colocar: António José Seguro e Sérgio Sousa Pinto;
5) Temos a autarca que necessita de ser premiada: Edite Estrela (Sintra).
6) Temos os ex-governantes sem talento para gestores milionários que precisam de encaixar em algum lugar: Fausto Correia e Capoulas Santos.

Para terminar só falta mesmo o “independente simbólico” que costuma aparecer para dar um ar de seriedade à lista e o representante das ilhas.

Não acreditam que este figurino seja universal? Vejamos a lista do PSD nas últimas eleições:

1) Temos a figura incómoda que ninguém consegue calar: Pacheco Pereira;
2) Temos o tipo em busca do exílio dourado: Vasco Graça Moura;
3) Temos o “independente simbólico”: Teresa Almeida Garrett;
4) Temos o ex-governante sem talento para gestor milionário que precisa de encaixar em algum lugar: Arlindo Cunha;
5) Temos os ex-presidentes de Jotas que ninguém sabe muito bem onde colocar: Jorge Moreira da Silva e Carlos Coelho;
6) Temos os representantes das ilhas: Carlos Costa Neves (Açores) e Sérgio Marques (Madeira);
7) Temos o autarca que necessita de ser premiado: Fernando Reis (Barcelos)


Ainda há dúvidas de que as listas do PS e do PSD são mais previsíveis que os dias da semana?

6.2.04

Melting pot


No Semanário Francisco Louçã afirma que o Bloco de Esquerda está mais interessado nos projectos políticos do que nas alianças preferenciais. Quem o ler até se esquece que o Bloco de Esquerda resulta de uma coligação entre o PSR e a UDP e que estes partidos sempre tiveram projectos políticos antagónicos.

E não é que o entrevistador de Louçã até lhe pergunta se será mais fácil fazer uma coligação com o PS ou com o PCP? Senhor entrevistador, depois de uma coligação entre o PSR e a UDP, o Bloco está apto até a fazer coligações com o CDS...

Beijo da Morte


As possibilidades de António Vitorino chegar a Presidente da Comissão Europeia pela mão de um governo de centro e centro-direita e numa altura em que o centro e o centro-direita se preparam para estar em maioria na Europa são severamente diminutas. Porque é que o espaço não socialista iria desperdiçar a oportunidade de colocar um dos seus, provavelmente tão ou mais competente que Vitorino.

Se assim é, não percebo porque é que Vitorino se deixa levar por esta vertigem que o levará a lado nenhum, antes pelo contrário. Esta vertigem apenas beneficia o Governo.

Uma vez frustrando-se a possibilidade de ser Presidente da Comissão, o mais provável é que Vitorino não tenha grandes condições para se sujeitar ao que vai parecer um mero prémio de consolação, que é ser reconduzido no lugar de Comissário Europeu. E Durão Barroso ficará livre de indicar quem quiser.

2.2.04

Vai uma sopinha?


Porque é que Marcelo passa a vida a desvalorizar manchetes de jornais que constantemente lhe prometem o regresso a altos cargos, demorando largos minutos a desmenti-las e gastando a nossa paciência com juras de frugalidade política, obrigando milhares de pessoas que nem sequer as lerem a saber que elas existiram?

Como se ele não as imaginasse às Quintas-feiras, as comunicasse ao Saraiva às Sextas-feiras, as lesse aos Sábados e as comentasse aos Domingos.

Para quando uma nova Vichisoise?

Mais do mesmo...


Soares também acha que este é o governo mais à direita desde o 25 de Abril. E eu também continuo a considerar que a Engenheira Pintasilgo foi a mais sexy primeira ministra que Portugal já teve e que a Luísa Mesquita é a deputada mais sensual do PCP.

Sobre este assunto, vale a pena ler a Desesperada Esperança, o Virtualidades e o Valete Fratres.

O comentador Pimba


Perguntaram-me ontem o que eu considerava serem as marcas distintivas de um cantor pimba. Reflecti uns segundos e respondi mais ou menos isto:

Um cantor pimba é geralmente um cantor com voz bem preparada e treinada em muitas estradas, mas que cede à música fácil, ligeira e imediata. É um cantor que recorre às letras brejeiras, ao que as pessoas que o escutam querem mesmo ouvir. É um cantor que cede ao bom gosto para captar o maior número de pessoas possível. É um cantor que alimenta o espírito popular e os faz acreditar que estão mesmo a ouvir música. É um cantor que ornamenta a sua música com gestos enormes, despropositados, ridículos, numa tentativa de divertir as pessoas disfarçar a pobreza do que canta.

Ontem à noite, umas horas depois desta conversa sobre cantores pimbas, dei por mim a escutar Marcelo Rebelo de Sousa.

É um homem culto, bem preparado, muito inteligente e cheio de experiência. Mas cede aos comentários fáceis, ligeiros e imediatos. Recorre a piadas e assuntos brejeiros (o futebol não é um assunto brejeiro, mas Marcelo usa o tema do futebol como tentativa brejeira de agarrar o espectador). É um homem que diz sobretudo o que a maioria das pessoas quer ouvir. Cede aos temas mais importantes para falar de temas que verdadeiramente não interessam para não perder audiências (outra vez o futebol...). Faz acreditar quem o está a ouvir que o que ele acha que é, é mesmo. Ornamenta os seus comentários com gestos enormes, despropositados, ridículos numa tentativa de fazer divertir as pessoas e disfarçar a pobreza do que comenta.

Não há dúvidas, se existe uma categoria de comentadores pimba, Marcelo é o Rei.

26.1.04

Boas Vindas


Pela 32.ª vez desde que este blogue iniciou as suas arrumações, que alguém entra aqui através do google em busca de informações acerca de Vítor+Hugo+Salgado. Presumo que se trata daquele jovem que comandava as manifestações em Coimbra e que tinha um especial fetiche por cadeados. Vítor, se és tu que te procuras tanto, sê bem vindo!

Ligeireza


Inexplicavelmente o país político anda entretido a tratar das eleições presidenciais de 2006. Isso mesmo. 2006.Bem sei que para o líder do PSD o ano de 2006 é um pormenor, convencido que está que será primeiro-ministro até 2010. Mas duvido que o país o acompanhe nessa ligeireza de calendário. Fazem-se declarações, congressos e entrevistas a discutir o assunto. Manifestam-se preferências. Insinuam-se guerrilhas. Perfilam-se candidatos. Enviam-se sinais para os jornais. Alinham-se exércitos. Gerem-se enigmas. Soletra-se com prudência. Curiosamente, ou talvez não, não se discutem ideias nem projectos. Tudo parece girar, como quase sempre, exclusivamente à volta de pessoas. De perfis. Discute-se se A é mais credível que B. Se C fala melhor que D. Se E sorri a preceito e se F tem pouco jeito para a rua.

Quem disse isto? Quem o disse foi Jorge Ferreira em Dezembro de 2003. Um mês volvido e Manuel Monteiro vem entrar na tal ligeireza de calendário, querendo desta vez apoiar o candidato que há alguns anos teve medo de apoiar. Sobre os diversos torpedos lançados por Monteiro na entrevista, basta ler o Cataláxia. Sobre as eternas piruetas da Nova Democracia e dos seus principais (não todos) dirigentes, basta ler os jornais de mês a mês, guardando as declarações que são feitas.

Madrinha


Fernando Madrinha começou por salientar as diferenças evidentes que separam a forma como o processo de pedofilia nos Açores tem sido conduzido e desastrada forma como o caso da Casa Pia tem evoluído, de forma algo semelhante à que fiz num post anterior. Mas depois, de forma surpreendente, limita-se a elogiar os agentes da justiça açorianos, como se a vergonha nacional em que se tornou o processo Casa Pia tivesse apenas como culpados os agentes da justiça. Ver para crer, aqui.

E os jornalistas caro Madrinha, inclusivamente o teu Expresso, não tem culpas evidentes?

Nojo


A imagem de Feher a cair no relvado vimaranense foi repetida até à exaustão numa clara violação de todas as normas que o bom senso impõe. O Serviço Público de Televisão impôs a toda a família e amigos de Feher o espectáculo degradante de o ver sucumbir depois de esboçar um último sorriso e alimentou a morbidez de todo o Portugal que viu cada repetição como se de uma nova imagem se tratasse. Não consigo comentar mais do que isto, porque me sinto verdadeiramente enojado com o que se passou na RTP.

22.1.04

Bloguítica


Disse alguns posts abaixo que o Bloguítica gostaria de ter um Governo que governasse de acordo com sondagens. O Bloguítica respondeu. Sobre a resposta do Bloguítica gostaria de começar por pedir desculpa. O Bloguítica tem razão quando diz que fiz um juízo de valor que não sustentei. E tem toda a razão, pelo que sinceramente peço desculpa. E igualmente agradeço a atenção de não me catalogar de imediato nos blogues menos sérios. Espero que as desculpas sejam aceites e que a sustentação que agora apresento, justifique a não catalogação.

Disse o Bloguítica que Durão Barroso não se sente vinculado pelo facto de, por exemplo, 68% e 69% da população portuguesa apoiar a descriminalização e a despenalização respectivamente, do aborto quando realizado por opção da mulher e nas primeiras dez semanas de gravidez ou de 78% dos apoiantes da descriminalização e da despenalização do aborto apoiarem a realização de um novo referendo, valores esses de algumas sondagens. Disse ainda o Bloguítica que Durão Barroso já se sentia vinculado a um compromisso eleitoral com um partido político que reúne 5.5% das intenções de voto da população portuguesa, de acordo com uma sondagem.

Ora, nos números que apresenta, todos resultantes de sondagens, o Bloguítica não referiu a percentagem de população portuguesa que, chamada pela única vez a pronunciar-se pela descriminalização do aborto, respondeu que era contra a descriminalização. Repare-se que este valor não resulta de nenhuma sondagem, mas de um resultado referendário. E repara-se ainda que este valor contradisse todas as sondagens (de valores semelhantes às sondagens que o Bloguítica apresentou) que na altura foram feitas. Mas essa percentagem, que para mim é determinante, foi omitida pelo Bloguítica, que preferiu concluir pela vinculação aos 5.5% do CDS.

Isto significa que, para mim, Durão Barroso deve estar vinculado por aquele resultado, durante esta legislatura. Aliás, nunca assisti a uma declaração sua que fosse em sentido contrário, nem o seu Programa Eleitoral refere qualquer intenção de não respeitar os resultados do referendo nesta legislatura. E isto significa que depreendi das palavras do Bloguítica que ele preferia que Durão Barroso atentasse antes nas sondagens recentemente realizadas do que nos resultados do referendo.

Na sua resposta, o Bloguítica parece concluir que sou contra a alteração da legislação sobre o aborto. Sinceramente, tenho as maiores dúvidas acerca do assunto, e inclino-me pela abertura da lei e pela sua revisão. Possivelmente por argumentos diversos dos apresentados normalmente pelas campanhas do “Sim”. Já escrevi um post acerca desse assunto.

Diz ainda o Bloguítica que segundo a lógica minha argumentação, então o Governo não deveria ter mudado de posição à construção do aeroporto da Ota e em relação à construção da ligação a Espanha por TGV… Penso que o Bloguítica labora em erro quando diz isso. Posso criticar o governo quando muda de opinião relativamente a aspectos específicos do seu Programa, aprovado no seu conjunto. Mas o que não posso aceitar é que o governo ignore os resultados de um referendo convocado especificamente para responder a uma determinada questão. E acredite que estaria a dizer o mesmo se o resultado do referendo tivesse sido outro. Porque a pergunta é reversível. Se num próximo referendo, a votação é “Sim”, aceita referendar de novo a mesma questão 6 anos depois?

21.1.04

Irreflexões


O Irreflexões escreveu que este governo era o governo mais à direita desde o Estado Novo. Isto é, nunca se esteve tão perto do Estado Novo como com este governo.

Parti do pressuposto que fosse para ele grave a existência de um governo tão à direita.

Parti desse pressuposto, porque eu não gosto do Estado Novo nem quero estar perto do Estado Novo.

Mas não me assustei com a comparação do Irreflexões.

Porque a comparação que o Irreflexões fez teve como comparação os governos de Cavaco Silva. Ora, entre Cavaco Silva e estar próximo do Estado Novo há um espaço enorme, onde podem caber vários governos de várias tendências e ideologias.

Logo, a frase do Irreflexões, estava correcta. Mas tentava produzir um efeito que, a meu ver, era desproporcionado. O mesmo que dizer que a Luísa Mesquita era a deputada mais sensual do PCP. O que aliás é verdade. Mas é desproporcionado dizê-lo.

Diz agora o Irreflexões que aceita qualquer governo legitimamente eleito e que tem a liberdade de o qualificar como sendo muito de direita e que isso não quer dizer que seja intoleravelmente de direita.

Peço então desculpa ao Irreflexões. É que para mim, no dia em que um governo estiver perto do Estado Novo, será para mim um governo intolerável.

Tem razão o Irreflexões quando diz que não é o Governo que elege o Presidente mas sim os portugueses. Tem toda a razão. Queria eu referir-me ao eleitorado que votou neste governo, o mesmo que, presumo, poderá votar em Cavaco nas Eleições Presidenciais.

Diz o Irreflexões que no caso de Cavaco ser eleito, será é o Presidente mais à direita desde o 25 de Abril. Pois. Mas o efeito dessa frase é bem menor do que dizer, como disse acerca do governo, que Cavaco seria o Presidente mais à direita desde o Estado Novo.

Sondagens


O Bloguítica gostaria de ter um Governo que governasse de acordo com sondagens. Eu prefiro um Governo que governo de acordo com os resultados dos actos eleitorais e referendários, única expressão de vontade eleitoral que o nosso sistema reconhece. Mesmo quando esses resultados desmentem todas as sondagens.

Bastonário de alguns...


Perante a forma como tem decorrido o processo de pedofilia nos Açores e a total ausência de comentários do Bastonário da Ordem dos Advogados, é caso para perguntar a Júdice: o senhor só é Bastonário dos Advogados continentais ou apenas lhe agrada comentar o processo Casa Pia?

Descubra as diferenças


Nos Açores, um dos arguidos no caso de pedofilia preso preventivamente foi libertado.

A notícia foi dada de forma serena, sem abrir o telejornal, e apresentada como decorrência normal de um processo judicial, que é precisamente do que se trata.

Não houve reacções de maior. Não houve declarações inflamadas. Não houve juras de confiança na justiça nem juras de cabala. Todos se limitaram a aceitar a notícia e a esperar os desenvolvimentos do processo.

Incoerências


A propósito da descriminalização do Aborto, tem sido avançado o argumento de que se trata de uma incoerência defender que o mesmo deve ser criminalizado e pugnar pela absolvição das mulheres que abortam. Pois bem, Cá para mim, isso não é argumento que valha muito. Se um homem desesperado decidir roubar um supermercado para poder dar de comer aos filhos, defendo que ele deva ser levado a julgamento, mas não preso. Chama-se isso adequação da pena ao crime cometido. Mas que defendo que o roubo deve continuar a ser crime, lá isso defendo. Sem hesitações. Há aqui uma incoerência insanável?..

Tolerâncias...


Em resposta ao post anterior, o Irreflexões parece achar que o governo de Cavaco Silva foi o mais à direita do tolerável. Está tudo dito. A tolerância só parece ter um lado. À esquerda, admite-se tudo. Até coligações com o Bloco. À direita, o máximo que se aceita é Cavaco Silva. Pois bem. Pode ser que tenham de aceitar Cavaco como Presidente eleito pelo governo "mais à direita do Estado Novo". E nessa altura vão dizer o quê?

16.1.04

A Eng.ª Pintasilgo foi a mais bonita chefe de governo que Portugal já teve


O Matamouros, como bem nota o Irreflexões, tem insistido na ideia de que o CDS condiciona ideologicamente o Governo da maioria. Esta ideia tem também sido defendida por Ferro Rodrigues, que chegou a dizer, como agora diz o Irreflexões, que este é o Governo mais à direita desde o Estado Novo.

A mim, incomoda-me pouco que este seja o Governo mais à direita desde o Estado Novo. Isso é o mesmo que dizer que a Eng.ª Pintasilgo foi a mais bonita chefe de governo que Portugal já teve. Ou dizer que a Luisa Mesquita é a deputada mais sensual do PCP. O que falha neste estilo de afirmações é o ponto de comparação. É dizer nada. É mascarar uma comparação pífia de frase bombástica pseudo-indignada. Ainda para mais quando o mote deste assunto é o aborto. O que dizer do resultado do referendo? Que Portugal tem uma população de direita?

O Matamouros, porém, vai um pouco mais longe e atribui este desproporcionado poder do CDS à nebulosa ideologia do PSD. CAA diz que o PSD, não lutando por princípios seus, na política como no resto, acaba sempre por se ver a defender os princípios dos outros. Diz isto como se o PSD fosse necessaria e originariamente um partido de relatividade ideológica. Acontece que essa relatividade foi imposta por Sá Carneiro e valeu muitos e demasiados dissabores à sua estratégia partidária e até política. Isto significa, quanto a mim, que existe muita gente no PSD que sempre conviveu mal com a facilidade com que o PSD se descartava de certos assuntos. Não fosse o CDS um partido de tão fracos líderes e tão mancas estratégias eleitorais e provavelmente teríamos tido êxodos semelhantes aos da ASDI, desta feita para a direita. Daí que, se há muita gente no PSD que se indigna, com ou sem razão, com o norte ideológico imposto pelo CDS, também é certo que há muita gente agradada.

Lembro-me de ter ouvido Paulo Portas dizer que uma das maiores virtudes da coligação eleitoral seria imprimir um cunho ideológico a um governo que sempre faltaria se este fosse apenas dirigido pelo PSD. Não sei se essa é uma virtude da coligação. Penso até que não. Mas que ele disse, disse. E as pessoas votaram.

Dois pesos e duas medidas


Escreveu Miguel Sousa Tavares no Público: Quando perguntamos o que leva uma jovem mãe palestiniana que deixa gravado que "só Deus sabe o que amo os meus filhos", a fazer-se explodir num posto fronteiriço entre Israel e os territórios ocupados, a resposta fácil é dizer: "Porque era terrorista." Mas resta a outra pergunta: "E porque era terrorista?"

E porquê Miguel? Porque é que a senhora é terrorista?

Para quem passou um artigo inteiro a desancar na política externa de George W. Bush sem se perguntar por um único segundo porque é que essa política existe e por que factores estava condicionada, é preciso um descaramento sobre-humano para nos vir exigir que perguntemos a uma terrorista porque é que ela o é. Ainda para mais sem se atrever a dar uma única resposta. Não nos queres explicar Miguel?

O ódio de estimação do Miguel


Miguel Sousa Tavares entreteve-se esta semana a escrever sobre George W. Bush. Vejamos como descreve Miguel Sousa Tavares o Presidente dos EUA.

Bush só ajudou os ricos, transformou o superavit herdado de Clinton em novo deficit galopante, desprezou qualquer preocupação ambiental, em benefício das indústrias poluentes, interrompeu drasticamente a revolução silenciosa a favor dos deserdados da América que Clinton tinha posto em marcha. Bush governa mal a economia do país e só conseguiu ser eleito por uma batota eleitoral. É inculto, impreparado e não tem capacidade de trabalho. Ignora e não compreende o mundo dos outros. É mentiroso e falsifica provas. Ele representa o que de pior tem a América profunda, que é o instinto de se fechar sobre si própria, os seus valores e crenças e acreditar que o mundo não vai além do seu pequeno mundo.

Esta descrição fala por si. Não vale a pena tentar contestar Miguel Sousa Tavares. Quem escreve o que ele escreveu está tão cego de ódio que não há discussão possível. Ó Miguel, o Bush andou a rondar alguém da tua família, a fazer-se aos direitos de autor do teu livro, a dizer mal de ti ou assim?..

9.1.04

Quando um Bastonário fala, os outros baixam as orelhas


De acordo com a TSF, José Miguel Júdice subscreve o apelo feito ontem pelo PGR para que todos os operadores judicários respeitem a lei no que diz respeito ao segredo de justiça, mas defendeu que os primeiros destinatários da mensagem são os funcionários do Ministério Público, lembrando que, de resto, a edição de ontem do DN revelou matérias em segredo de justiça do processo Casa Pia que «perspectivavam a tese da acusação».

Caro Senhor Bastonário, e as notícias do JN e da Focus perspectivam teses de quem??

Caro Senhor Bastonário, porque razão fala sempre que a acusação pode ser criticada, mas não fala nunca quando as notícias dão contas de avanço no processo?

Pelo sonho é que vamos...


O excelente artigo de João Marques de Almeida no Independente acerca de Pacheco Pereira é um importante contributo para a discussão que o jornal procura insistentemente lançar acerca da nova direita liberal, e que já tive a possibilidade de analisar aqui.

João Marques de Almeida chama a atenção para os constantes esforços de Pacheco Pereira, e tradicionalmente de todo o PSD, para elevar o partido a partido nacional, dono do centro-esquerda e do centro-direita, capaz de se comprometer com um ou com outro consoante os ventos, as ideias, os tempos ou as pessoas.

Essa tem sido a ambição do PSD desde o seu nascimento. Vários episódios demonstram esse facto, nomeadamente as problemáticas relações que o PSD sempre teve com o CDS, e que ilustram o esforço sobre-humano do PSD em garantir que o seu espaço político não esteja entrincheirado entre dois partidos, antes valha como um bloco unido.

Sá Carneiro teria conseguido se tivesse vivido mais tempo, com a inevitável fusão dos dois partidos, em circunstâncias que ditariam a formação de um terceiro. Cavaco quase conseguiu através do esvaziamento ideológico do CDS, ocupando todas as franjas de eleitorado e assumindo a postura ideal para qualquer eleitor de centro-direita e de direita que se prezasse. Durão Barroso ainda não sabe como vai fazer, mas provavelmente seguirá o caminho proposto por Sá Carneiro, embora aqui as circunstâncias não impliquem o aparecimento de um terceiro partido, antes a mera diluição do CDS.

Um Governo, uma maioria e um Presidente será o beijo da morte para o CDS. No dia em que a elite política e eleitoral do CDS perceber que o sonho é possível, pouco mais restará ao CDS. No dia em que se comprovar que o bloco da direita unida consegue dominar o país, em condições capazes de ditar até uma permanência no poder superior aos tradicionais 8 anos, poucos serão os que se disponibilizarão para voltar à oposição com 7 ou 8%.

Há saída para o CDS? Há evidentemente saída para o CDS, mas não como partido de poder. Para que o CDS se transforme verdadeiramente em partido de poder com possibilidades de subsistir como tal, tem de subir aos 15%, como nos tempos de 76, e falar de igual para igual com o PSD.

Até lá, o artigo de João Marques de Almeida continua a ter acuidade. Até lá, o sonho de uma nova direita liberal a que o Independente tanto aspira, fica adiado.

Só a Europa?..


O primeiro-ministro, Durão Barroso, considera que a União Europeia tem «um problema de liderança».

Liberdade de Imprensa


Muito se tem falado acerca da liberdade de imprensa e da necessidade de lhe alterar o regime legal, como se, pela primeira vez, se tivesse assistido a uma intolerável actuação dos meios de comunicação social.

Custa-me a crer que o quadro legal necessite de ser alterado. O essencial, isso sim, seria que os operadores o aplicassem e sobretudo o cotejassem com o regime legal dos direitos com os quais a liberdade de imprensa pode entrar em conflito.

A liberdade de imprensa não pode ser coarctada. A liberdade de imprensa deve ser exercida plenamente no seu campo de actuação. Que eu saiba, liberdade de imprensa não implica liberdade de cometer crimes. E a ofensa ao bom nome é um crime. E a difamação é um crime. Da mesma forma que a liberdade de associação e reunião não implica violação de propriedade privada. Da mesma forma que o direito à propriedade não implica o furto ou o roubo.

Não mascarem a questão. Não entreguem armas aos bandidos. Não os deixem falar em censura. Há criminosos entre os jornalistas. Pessoas que praticam reiteradamente crimes. E para esses, que eu saiba, o Código Penal chega perfeitamente...

8.1.04

Pela boca morre o peixe...


O PÚBLICO ouviu a opinião de vários procuradores do Ministério Público (MP) a pretexto da notícia da revista "Focus" e todos negaram que a inclusão dessas fotografias signifique automaticamente que os retratados são suspeitos no processo, tal qual dissemos aqui no post anterior.

Perdoem-nos todos os que se apressaram a indignar-se com a possibilidade de essas fotografias terem sido mostradas, mas a pergunta é evidente: porque razão se apressaram a colar os fotografados na condição de suspeitos, em vez de, como fizemos ontem aqui, condenar a revista em causa por não ter explicitado em que condições constavam essas fotografias?

7.1.04

Imagino...


Imagino o senhor do Ministério Público a interrogar alegadas vítimas de pedofilia. Imagino-o a ouvi-la dizer que o Cardeal a violentara. Imagino-o a mandá-la para casa. “Que disparate... Olha agora o Cardeal a violentar criancinhas...”

Isto seria o cúmulo da incompetência.

O que exijo desses senhores é que, perante testemunhas que estão a ser interrogadas e que se presumem ter interesse para a investigação, procurem confirmar toda e cada uma das graves acusações que a testemunha fizer.

Se for necessário confrontá-la com fotografias, acho muito bem que o seja.

Quem tem de vir dar explicações a terreiro é a revista FOCUS, que decide publicar notícias bombásticas sem explicar o contexto.

E se essas fotografias foram mostradas a testemunhas destinadas a rebater e a desmentir o que outra havia acusado? E se as fotografias se destinaram, precisamente, a esclarecer que algumas acusações foram falsas? E se essas fotografias serviram essencialmente para esclarecer e chegar à verdade?

6.1.04

À tua espera...


Dizem que anoitece de repente. Só quem nunca esperou pode dizer que assim é. Começam a surgir os laranjas secos, como cascas esquecidas ao Sol, que permanecem por muito mais tempo do que se julga, até que um novo azul, muito mais escuro, muito menos de mar, se vem cruzar com os laranjas, mais do que um, muitos. Entre estes cambiantes há um mundo inteiro por acontecer que permanece quedo e silencioso. Há sinais que se buscam e se desejam e que desaparecem ou se omitem na inversa proporção do delírio que persegue quem espera. Entre o laranja e o azul aparecem e desaparecem investidas de encontro que quase iludem a deleitosa vertigem da pele na pele. Se tudo se passa rapidamente, como dizem, é porque alguma coisa fez atrasar o tempo naquela tarde, depois fim de tarde e depois começo de noite. Nada, absolutamente nada, se moveu e tudo, absolutamente tudo, parecia fora de lugar

Presunções


João Pedro Henriques noticia no Público que Jorge Sampaio deixou duas sugestões a destinatário não especificado no que respeita às violações do segredo de justiça. A primeira, segundo JPH, é sobre a "indispensabilidade" de "serem emitidas instruções por quem de direito" (não diz quem, mas pode-se presumir que seja o procurador-geral da República) para que, "no estrito respeito da lei, evitem, no futuro, inúteis e sempre irreparáveis lesões do bom nome e reputação das pessoas".

Repare-se que Sampaio não disse que as instruções deveriam ir no sentido de combater a fuga de informação, porque, sendo esse o caso, é natural que o destinatário fosse o PGR ou a própria Ordem dos Advogados, mas sim as lesões ao bom nome e reputação das pessoas.

Ora, que se saiba, as lesões ao bom nome e reputação são praticadas quer por quem desvia as informações quer por quem as publica muitas vezes de forma descontextualizada.

Porque razão se presume que apenas seja o PGR o destinatário? Não poderia Sampaio estar a pensar também no Sindicato dos Jornalistas?