30.12.03

Importa-se de repetir?


De acordo com o DN, Serra Lopes disse que não ficou surpreendido com o que leu na acusação.

Se não ficou surpreendido, porque é passou meses a dizer que não sabia de que era Carlos Cruz acusado?

Desejo


Leva-me contigo para o próximo ano.

29.12.03

O Silêncio é de ouro...


O MP avançou para a acusação a Paulo Pedroso, Carlos Cruz e Herman José no âmbito do processo de pedofilia da Casa Pia.

A notícia surgiu já há algumas horas mas até agora não se ouviu um pio de José Miguel Júdice? Não é o Bastonário que se apressa a vir comentar nos media sempre que um dos recursos dos arguidos merecia provimento? Porque não falou ainda? Porque se cala? Várias hipóteses:

1) Percebeu as tristes figuras que andava a fazer;
2) Já não precisa de andar a fazer-se notar porque Marcelo já se veio assumir como a terceira via da Direita, ocupando-lhe o espaço;
3) Só comenta as decisões que de alguma forma colocam em causa a credibilidade do processo;

Tendo em conta a resposta 2), seria engraçado perguntar ao Bastonário se entretanto mantém a decisão de não se recandidatar a Bastonário ou se entretanto mudou de ideias...

Ouça lá Prof. Marcelo


A propósito do outing de Marcelo sobre a sua condição de presidenciável (de que o Matamouros e o Cataláxia já falaram soberanamente), seria bom que o Prof. Marcelo respondesse a algumas questões prévias:

1. Se o Prof. Cavaco não se candidatar, o Sr. avança contra Santana Lopes. Vai abster-se de comentar a vida política de Santana Lopes tendo em conta que é uma pessoa sobre a qual não consegue falar imparcialmente? Ou vai advertir que fala contra Santana sempre que pretensamente comentar a vida política (e não só...) do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa?

2. Quando é que o Sr. pretende deixar de ser comentador na TVI? Quando lançar a sua candidatura, leia-se quando já tiver reunidos todos os apoios políticos e financeiros, quando já tiver uma estrutura montada, quando já tiver um programa e uma estratégia? Ou pretende o Sr. tentar fingir que só se é candidato quando se anuncia formalmente a candidatura? Ou vai ficar até Santana ficar, sendo certo que Santana se assume como comentador partidário e o Sr. como Pai de todos os portugueses?

3. Pretende o Sr. deixar de comentar o pretensa candidatura de Cavaco Silva, facto político que determina seguramente a sua vida política futura? Ou vai comentar na mesma, como se a candidatura de Cavaco lhe fosse perfeitamente indiferente?

4. Por quanto tempo pretende desgastar o nome de Cavaco, obrigando o Expresso a entrar nessa jogada, aumentando a sensação de tabu, para que o erro de há 6 anos se repita?

5. Se o Sr. admite que pode candidatar-se a Presidente da República é porque cedo ou tarde necessita de apoios. Abster-se-á de tecer elogios às figuras tutelares da direita e do centro-direita?

6. Visto que uma candidatura a Presidente exige algum esforço de preparação, mesmo que ainda se esteja perante uma hipótese, podemos esperar que esse esforço de preparação lhe vai retirar algum tempo livre, reduzindo assim o n.º de livros que leu e gostou e que aconselha todos os Domingos, ou vai fingir que continua com o mesmo tempo livre?

7. Está disposto a protagonizar umas primárias com Santana Lopes, com o apoio da TVI, como se das eleições para o Benfica se tratassem?

8. Quando é que está disposto a ter vergonha na cara?

Troca de Links


Pela quarta vez desde que o Caso Arrumado nasceu, propuseram-me uma troca de links. Gostava muito, até porque sinto falta de poder remeter diariamente para o que melhor se escreve na blogosfera. Mas não percebo nada destas tecnologias. Ofertas graciosas de ajuda aceitam-se em casoarrumado@hotmail.com

Intervalo


O Caso Arrumado ficou ao abandono devido às festividades natalícias e vai continuar em semi-abandono até ao romper do novo ano.

19.12.03

A reboque...


Já sabíamos que o PS andava a reboque do Bloco de Esquerda. Já sabíamos que o PCP andava a reboque da cartilha de Cunhal (actualizada pela última vez em 1974). Já sabíamos que o Bloco de Esquerda andava a reboque da opinião publicada (ou será ao contrário?..). Já sabíamos que a opinião publicada andava a reboque da opinião publicada internacional, que por sua vez anda a reboque dos blocos de esquerda deste mundo.

O que nós ainda não sabíamos que esta gente toda se prestava a andar a reboque do Bispo do Porto. Não fora ele, e o tema do aborto ficava à espera de outros dias. Ou não foi isso que Ferro aprovou no Congresso em que foi reeleito?

18.12.03

Problema existencial


O Babugem toca, ao de leve, num assunto que, desde o começo dos meus dias conscientes, me instiga e me intriga.

Diz o Ricardo, a propósito de música, que quanto ao “fenómeno Tribalistas que tinha muito mais piada quando a «Velha Infância» era ainda nova, dou graças pela descoberta de Maria Rita e da sua proposta que vale bem mais pela negritude do som do que todas as cores do arco-íris do disco de Arnaldo, Carlinhos e Zé.”

Posso ter percebido mal, mas o que adivinho naquelas linhas é a desilusão de ver um bom trabalho, um excelente trabalho, ser de tal forma vulgarizado que quase temos vergonha de reconhecer que é um bom trabalho.

Mas a questão é: deixa um produto de ser bom por ter caído no goto? Deixa um produto de ser bom por estar massificado? Se a RFM,a Rádio Comercial, a Rádio Cidade e outras tantas desatarem a emitir Maria Rita hora sim, hora sim, deixa o disco da Maria Rita de ser um bom disco? Gostava de poder dizer que não. Que não deixa.

Aborto


O Bloguítica e sobretudo o Matamouros (via CAA) parecem criticar o CDS pelas relativamente diversas opiniões existentes no CDS sobre o aborto. Como se o aborto fosse daquelas questões de meridiana clareza, de sim ou não, de tudo ou nada.

Os únicos partidos que parecem ser unânimes no que respeita ao aborto são o PCP e o Bloco de Esquerda. Mas isso deve-se seguramente a uma tradição de pluralidade de opiniões que sempre existiu naqueles partidos.

Até o PS tem manifestado posições divergentes nesta matéria. Por muito que Manuel Alegre tivesse barafustado por não ter sido imposta disciplina partidária nesta matéria, o PS demonstrou que, nesta matéria, todos pensam de forma diferente. Claro que quando Manuel Alegre votou contra a co-incineração berrou e esperneou contra a disciplina partidária.

E permito-me acrescentar que, no que se refere ao aborto, todos temos opiniões diferentes, excepto os radicais do Sim e do Não.

Bastonário parte II


Há uns tempos atrás, numa entrevista a uma rádio (penso que era a Renascença), José Miguel Júdice disse que a sua recandidatura a Bastonário dependia do Congresso da Justiça. Se o Congresso corresse bem, e era ele que dizia se corria bem, optaria por não se recandidatar. Se o Congresso corresse mal, e era ele que dizia se corria mal, optaria por se recandidatar.

Acontece que, mesmo antes de o Congresso da Justiça ter começado, já José Miguel Júdice veio dizer que não se recandidatava. O que é isto significa?

a) que José Miguel Júdice se antecipou e acha que o Congresso correu bem, mesmo antes de ele ter começado?
b) que Santana Lopes se antecipou no calendário das eleições presidenciais, obrigando os vários coelhos a sair da toca?
c) que José Miguel Júdice se apercebeu das tristes figuras que andou a fazer nos últimos meses?

Aceitam-se apostas!

17.12.03

Bastonário adiantado vale por 2?


Jorge Ritto vai ser libertado, embora ninguém saiba ainda porquê. Acabei de ouvir o Advogado de Ritto dizer na TSF que não sabe ainda que recurso dos inúmeros que interpôs foi objecto de decisão da Relação. Chegou mesmo a dizer que não estava a perceber ainda muito bem como é que a Relação tinha determinado a libertação de Ritto, embora isso fosse obviamente uma boa notícia.

Apesar de ainda ninguém saber nada, nem sequer o Advogado de Ritto, José Miguel Júdice já veio dizer que a Justiça estava a ser feita e os erros corrigidos. Pois.

16.12.03

Porque não dizem logo que o querem libertar?


No post “Prisão ilegal, julgamento injusto”, o Liberdade de Expressão reitera a ideia que já havíamos defendido aqui de que a defesa de que a guerra foi ilegal e a defesa de um julgamento para Saddam são duas posições incompatíveis. Tal como escrevemos no post anterior, já se ficou a perceber o que querem os do partido anti-guerra com esta ideia, que Vital Moreira também já repetiu, de levar Iraque e EUA a julgamento ao mesmo tempo. Deviam era ter vergonha na cara.

15.12.03

Fechem as portas na cara do Miguel


Miguel Portas defendeu, entre outras pérolas, as seguintes ideias no Frente a Frente da SIC Notícias:

1. O Iraque está a ser ocupado ilegalmente;
2. Essa ocupação continua a ser, neste momento, o maior problema do Iraque;
3. Os Estados Unidos foram cumplices de Saddam nos seus massacres, durante a década de 80 (armando-o) e de 90 (devido ao bloqueio);
4. Saddam e os Estados Unidos devem ser julgados por um Tribunal Penal Internacional.

Se juntarmos todas estas peças, percebemos as conclusões que Miguel Portas quer tirar:

1. Se a ocupação é ilegal, Saddam foi deposto e capturado ilegalmente;
2. Se a captura foi ilegal, Saddam deve ser libertado;
3. Como os Estados Unidos são cúmplices de Saddam, e estão em Tribunal, devem ser condenados.

No que é que isto resulta? Saddam de novo em liberdade e os Estados Unidos condenados...

14.12.03

Palavras para quê? Parte II


Estava a tentar fazer uma recolha da opinião publicada que não consegue disfarçar que a captura de Saddam a enerva profundamente. Desisti agora que vi essa recolha feita no Jaquinzinhos. Está a ficar cada vez mais árduo oferecer algo de novo aos leitores. Acho que vou passar a oferecer brindes por cada pageview!

Palavras para quê?


Chegamos à blogosfera com muito para dizer. Está cá tudo. Basta ordenar, sistematizar, escrever. Depois descobrimos que alguém já disse o mesmo que nós. Mas não se limitou a dizer o mesmo. Disse mais. E melhor. Muito melhor.

A propósito do assunto que referi no meu post anterior, em que manifestei o meu receio acerca de algumas opiniões que se publicarão depois da detenção de Saddam, o Liberdade de Expressão arrumou-me a um canto. Disse muito mais e muito melhor. Arrumado. O nome deste blogue vem do Greene, não vem destas operações. Mas ainda assim, por cá continuarei. Antes arrumado pelo melhor de todos os blogues do que por outro qualquer!

Saddam foi capturado!


Provavelmente, Luis Delgado escreverá qualquer coisa como: "Saddam foi capturado o que é uma excelente notícia para o Mundo. Resta pouco mais para a vitória total. Os EUA serão os grandes vencedores e até ao final do ano a democracia estará em pleno no Iraque".

Infelizmente, apesar da estrondosa boa notícia que encerra a captura de Saddam, tenho receio de que o pior possa estar para vir e medo do que alguma opinião publicada vai escrever. Não a opinião publicada de Luis Delgado, mas a outra. A que está a torcer pela resistência iraquiana. Pois.

12.12.03

Posta Restante


Recebi dois mails que achei importante responder aqui. O primeiro, do Luís Barros, pergunta-me se sou judeu. De acordo com o Luís, os comentários que tenho feito acerca de Israel e as expressões hebraicas que escrevi denunciam a minha religião judaica (nunca revelada no blogue) e logo a minha parcialidade no assunto. O segundo, da Teresa Neves, pergunta-me como posso gostar de Eugénia Melo e Castro, o “miado mais desastroso da música portuguesa”. Vamos por partes:

Caro Luís, não sou judeu. Sou católico apostólico romano. Pouco praticante. Mas não estará o Luís a confundir os planos? Não acha que o conflito do Médio Oriente, de que Israel tem sido a principal vítima, ultrapassou há muito o factor religioso? Não acha que o conflito e as atrocidades que ele comporta é hoje uma questão civilizacional? Uma das razões para o conflito se eternizar é que teimam em nele ver o factor religioso. E esse factor serve para tudo, nomeadamente para sacudir a água do capote. Eu não sacudo. O que lá se passa diz-me respeito como cidadão do Mundo. E não preciso de ser judeu para me solidarizar com Israel.

Cara Teresa, sinceramente, não sei o que lhe responder. Provavelmente será uma cantora muito pouco consensual e pouco conhecida, mas de que gosto, nomeadamente das letras. Já experimentou ouvir o seu último álbum. Muito bom e muito diferente do habitual. E com menos “miados”. Escreva sempre!

11.12.03

Imagem


A tua imagem suspensa
Vai indo embora de mim
Faço um esforço quase desumano
Para a segurar aqui
Como se ela fosse boa
E o seu lugar fosse habitado
Por outra imagem de ti


Eugénia Melo e Castro

10.12.03

Rua da Judiaria


Descobri o Rua da Judiaria por acaso. Gostei muito do que li, não só mas também porque toca em questões pelas quais nutro particular simpatia e sobre as quais já tive a oportunidade de ir falando por aqui. Espero que fique por cá muito tempo. Al telhi mi-kan!

O Independente, a nova direita liberal, a blogosfera e o criador que cria um monstro... (actualização)


Vi agora que o Guerra e Pas toca também, noutra perspectiva e noutro contexto, na emergência de colunistas da nova (ou não...) direita. Vi que o fez antes de mim, e portanto merece referência e link para o excelente post acerca dos colunistas da nossa praça.

Jotas


O Contra a Corrente escreve deliciosamente sobre as juventudes partidárias. Termina com um conselho: Trabalhem mais, estudem mais, doutrinem menos.

O meu primeiro conselho seria outro: sejam. E depois de serem alguma coisa, disponibilizem-se para oferecer o que são às vossas ideias. O Mundo está cheio de ideias boas defendidas por homens vazios.

O meu segundo conselho seria: vivam. E depois de viverem alguma coisa, disponibilizem-se para mudar o que realmente importa na vida. O Mundo está cheio de ideias vazias defendidas por bons homens.

O Independente, a nova direita liberal, a blogosfera e o criador que cria um monstro


O Independente tem-se esforçado por revelar uma nova direita liberal que parece estar a surgir em Portugal. Dá-lhe jeito autonomizar e legitimar uma nova realidade sociológica que tome o jornal como seu e como sua referência. Ao mesmo tempo, a maior parte da blogosfera que pode efectivamente ser considerada como essa nova direita liberal, recusa o epíteto e afasta-se dessa definição.

O comportamento do Independente teria aspectos bastante positivos se não fosse artificial. O novo que se apregoa, sempre existiu. Se algum partido político assumisse esse repto, ou se alguma nova geração de políticos adoptasse o epíteto, então sim, estaríamos perante um novo facto político em Portugal. Isto partindo do princípio que poucos levam a sério que a Nova Democracia corresponda a essa nova direita liberal, como pretendem os seus fundadores.

O que o Independente tem trazido a lume é não mais do que um conjunto de excelentes cronistas (e bloguistas, como este, este, este ou este) que, de alguma forma, correspondem a uma forma de encarar a direita fora dos estreitos limites que os partidos políticos lhe impõe. Mas se formos sensatos, não poderemos falar de nova direita a uma direita que sempre existiu, e que nunca se sentiu integralmente revista num partido político (com a excepção do CDS de Lucas Pires, provavelmente). Novidade seria se algum partido político adoptasse o seu discurso.

Tenho algumas dúvidas que o Independente seja recompensado por este esforço. Por um lado, o Independente tem uma história que o marcará para sempre e que de certa forma impede a entrada de novos leitores. Por outro, a estratégia de criar a nova direita teria, para conseguir alcançar os desideratos pretendidos, de ser acompanhada de verdadeiros fenómenos políticos e sociais, que parecem não existir. Veja-se o caso da blogosfera. A maior parte dos bloguistas recusou o epíteto, apesar de constituírem, de certa forma, peças da estratégia do Independente. No campo partidário, quase ninguém assume essa herança. No campo social ninguém se destaca na defesa desses valores. E para cúmulo dos cúmulos, comprometendo talvez o sucesso político desta direita, Manuel Monteiro é o único que se assume dela representante.

Provavelmente estarei a exagerar se disser que existe uma verdadeira estratégia do Independente, mas não creio que assim seja. A quantidade de artigos e referências a uma nova direita liberal esgota a possibilidade de coincidência. Tanta gente a escrever ao mesmo tempo sobre a nova direita implica um esforço ponderado.

A forma como a blogosfera reagiu ao epíteto ajuda a perceber esta realidade. Uns recusam o “nova”, outros o “liberal” e outros talvez o “direita”. Para além dos argumentos teóricos e práticos que ajudam à bondade da recusa do epíteto, certo é que existe uma espécie de pundonor ferido por parte de alguns bloguistas. A blogosfera é actualmente um espaço de afirmação pela diferença. Quanto menos politicamente correcto (e existem políticamente correctos de esquerda e de direita) maior é a afirmação. Ninguém escreve na blogosfera política para dizer o mesmo que Luís Delgado ou Medeiros Ferreira. A blogosfera política ganha tanto mais quanto mais se afastar do quadro político actual. Fica bem estar de fora dos partidos, estar de fora dos movimentos sociais. Fica bem não se identificar com nada excepto com ideias. É sempre mais confortável não ser confrontado com as contingências do dia-a-dia da aplicação das ideias. É sempre melhor teorizar e dizer “se fosse eu”, do que aventurar-se no tentar “ser eu”.

De repente, grande parte da melhor blogosfera política portuguesa viu-se confrontada com uma catalogação política que, afastados os preciosismos de ser nova ou velha, lhe assenta minimamente, com todas as desvantagens de generalização. E foi aí que essa blogosfera se viu tentada a afastar-se do rótulo. Não só por motivos válidos, mas também porque, ao contrário do que convém ao Independente, não lhes convém estar associados a uma nova geração minimamente homogeneizável. Não lhes convém ser identificados com um movimento social, cultural ou político porque isso implica compromissos, acção, intervenção. E isso afasta-os da teoria. Do treinador de bancada.

De uma assentada, um jornal deseja ardentemente criar um novo movimento sociológico, em parte embalado pela blogosfera política de direita, que o lê, o comenta e (alguma) nele escreve, ao mesmo tempo que essa blogosfera se afasta desse movimento que, sem ela, nunca teria sido esboçado ou revelado.

Será que a blogosfera política de direita criou um monstro que não consegue já controlar? Será que os bloguistas de referência dessa direita (nova ou velha, mais ou menos liberal) vão conseguir manter-se na teorização, resistindo aos apelos que vão começar a chegar em cada vez maior número de intervenção? Será que os grandes e melhores bloguistas de direita sabem que a condição de bloguistas está a ficar mais desajustada do que nunca, que são interpelados para mais?

Porque numa coisa o Independente tem seguramente razão. Esta direita tem hoje um espaço maior de divulgação do que antes. É hoje mais conhecida nas suas ideias e nas suas referências. Ficará por aqui?

4.12.03

Para o Linhas de Esquerda


Corria o ano de 1995. O mês penso que era de Novembro. Foi num fim de tarde gélida que encontrei um conjunto de jovens iluminados por velas e embalados pelo silêncio. Estavam à porta da Embaixada da República Popular da China. Traziam cartazes revoltados. Exigiam responsabilidades. Confrontavam o regime. Deixei-me ficar por ali. Com eles. A luz das velas era também a minha.

3.12.03

A Constituição que ninguém respeita mas todos querem manter


O Rui do Artigo 37.º diz que o chamado carácter socializante do texto original da Constituição da República Portuguesa (CRP) que tanto assustou algumas pessoas nunca foi posto em prática e foi à muito expurgado do texto e que de nada vale andar a mudar constituições para elas se aproximarem o mais possível do programa dos nosso partido porque se os outros partidos fazem o mesmo andamos sempre a rever e nunca se chega a lado nenhum.

Confesso que também penso que a CRP não neve nem pode constituir um texto mutável, de moda, de ciclos. A CRP deve ser o reflexo dos princípios organizatórios e políticos de um Estado, nada mais do que isso. É precisamente essa qualidade que faz de uma Constituição um texto perene, que não necessita de sucessivas e ordinárias revisões.

A nossa CRP é tudo menos isso. A nossa CRP é um alfobre de tudo e de nada. Mistura princípios fundamentais com coisas nenhumas, datadas, passadas. Dir-se-á que grande parte dessas coisas têm sido esquecidas na sua interpretação e que já ninguém lhes liga. O problema é quando uma Constituição contem normas a que ninguém liga porque estão datadas e porque não fazem sentido. Isso é permitir que a CRP seja desrespeitada. Cria um vício terrível que é o de se pensar que a CRP não é bem Lei, que é uma divagação, uma miragem. A CRP é a nossa Lei Fundamental, e a ela se deve subsumir todo o nosso ordenamento legal. É por isso que temos todos o direito de exigir uma CRP adequada.

Não estou a pedir que a CRP se atenha mais aos princípios políticos do partido x ou y. Apenas lhe peço que reflicta os nossos princípios essenciais e fundamentais. O que o PS e o PCP estão a fazer é a contribuir para o desrespeito e a desacreditação do texto que tanto veneram. Sobretudo o PS, que não acredita já em quase nada do texto que ainda quer por força manter. Mas o problema do PS é que acha que vai perder o papel de “guardião” do espirito de Abril se concordar na revisão profunda e essencial que urge fazer. E como poderia Manuel Alegre saltar para todas as câmaras de televisão falar da tortura, da PIDE, do Alfeite, do exílio se o PS aceitasse rever o que o presente se encarregou de tornar obsoleto e o que Mário Soares há muito já colocou na gaveta?

A revisão que urge fazer é tão profunda que acabo por involuntariamente concordar com Jorge Miranda. O Professor acha que esta CRP já não pode nem deve ser alterada. E possivelmente terá razão. Possivelmente terá razão quando diz que mais alterações desvirtuarão o texto de 76, e o espírito que lhe deu corpo. Possivelmente estaremos a precisar é de uma nova Constituição. E de preferência, elaborada de forma serena e natural, sem grandes complexos. Sem Manueis Alegres portanto...

2.12.03

Linhas de (extrema) esquerda


O Linhas de Esquerda decidiu perguntar se a Coreia e o Irão não têm alguma legitimidade em se tentar fortalecer contra um qualquer ataque preventivo dos EUA? De acordo com JAK, se os EUA se fortalecem com armas nucleares devem a Coreia e o Irão fazer o mesmo para se precaverem de um ataque preventivo.

Claro que não lhe passa pela cabeça que a situação é inversa. Claro que não lhe passa pela cabeça que o 11 de Setembro demonstrou precisamente que os EUA ganharam legitimidade para fortalecerem a sua defesa. Claro que não lhe passa pela cabeça que regimes como os da Coreia e do Irão não são semelhantes ao dos EUA. Claro que não lhe passa pela cabeça, porque não vive na Coreia. Se lá vivesse, sempre gostaria de saber se ficava contente por não poder ter um blogue a não ser que fosse para louvar o regime. Bom, pensando bem, talvez isso não seja um bom exemplo...

Se as barrigas fossem de vidro...


O Post do NMP do Mar Salgado acerca do aborto veio tocar em alguns dos pontos que considero mais determinantes na discussão que agora se começa a desenhar sobre o epíteto de nova direita liberal. O aborto representa uma das minhas maiores contradições políticas e pessoais pelo simples facto de que embarco em argumentos mais emotivos do que lógicos, ao arrepio do que costumo fazer em quase tudo na vida.

Tenho para mim que o feto, desde um momento que ainda ninguém conseguiu definir qual pelo que há de presumir-se que desde a concepção, é uma Vida. Se assim é, não há como não ter que proteger esse valor até ao limite das nossas forças, com a agravante que o ser em potência que aí vem não tem qualquer capacidade para se defender. E se é de uma Vida que se trata, não pode haver como permitir o aborto.

As excepções legais que actualmente existem servem para mascarar a situação e aliviar consciências. Se é de uma Vida que estamos a falar, se realmente acreditamos que há um valor que deve ser protegido e tutelado, porque razão permitimos excepções como as que vêm previstas na lei? Mas o certo é que todos nos sentimos mais confortados porque acreditamos que estas excepções permitem recorrer ao aborto nas situações mais dramáticas. Mas como justificar que uma mulher vítima de violação possa abortar, se acreditamos sinceramente que há um vida dentro de si?

Esta é a minha posição de princípio. É nisto que acredito. Mas depois vem a emoção. É impossível não achar que este plano dos princípios é demasiado gélido para abarcar situações dramáticas que todos os dias nos assaltam na rua. Tenho a plena convicção que é a emoção a toldar-me o pensamento mas não posso deixar de imaginar o que seria se certas mulheres fossem obrigadas a ter o filho que esperam. E deixo-me levar neste pensamento até esbarrar com as minhas convicções de que é de uma Vida que estamos a falar. Não são questões de esquerda ou de direita mas sim de séria intimidade. E neste caso, sinto-me incapaz de tomar uma posição definitiva e consciente sobre o assunto.

O plano dos princípios diz-me que o aborto deve ser proibido. Mas esse plano levado a sério obrigaria a proibir todos os abortos, sem desenhar qualquer excepção legal. O plano da emoção diz-me que o aborto deveria ser permitido dentro de certos limites. Mas esse plano levado a sério obrigaria a relativizar o valor em causa e em que acredito.
Se ao menos as barrigas fossem de vidro e pudéssemos observar o que lá se passa, tenho a certeza que a minha resposta seria mais determinada....

No referendo sobre esta matéria fui votar cheio de dúvidas. Fui daqueles que acompanhou a campanha a par e passo, na expectativa de encontrar um espaço para a minha opinião. Do lado do Não encontrei a frieza de quem leva os seus princípios até ao fim, guiando-se por eles, aconteça o que acontecer. Do lado do Sim encontrei não o calor das emoções mas a frieza de quem acha que não há qualquer valor a ser tutelado nesta questão.

Não encontrei o meu espaço porque todos pareciam tão seguros das suas convicções que em nenhum lado encontrei alguém que vivesse o mesmo dilema que eu. Na dúvida, como me mandava a lógica, votei Não.